sábado, 10 de fevereiro de 2018

A afirmação de Guillermo del Toro, um autêntico nerd em Hollywood


Os nerds estão na moda na indústria do entretenimento. O triunfante sucesso do Universo Vingadores, de franquias como O Senhor dos Anéis, Star Wars e Harry Potter e das populares séries The Big Bang Teory, Silicon Valley e Stranger Things não me deixam mentir. Após anos sofrendo com os "cuecões", as piadas nos corredores da escola e o bullying em geral, os aficionados pela cultura pop chegaram ao topo da "cadeia alimentar social", um status que tem sido sedentemente explorado em Hollywood. Neste contexto, nada mais justo que a consagração de Guillermo del Toro, um autêntico nerd da Sétima Arte. Apaixonado por monstros e pela magia do cinema fantástico, o visionário realizador mexicano - finalmente - entrou no radar das grandes premiações com o exótico romance vencedor do Oscar A Forma da Água (leia a nossa critica), uma particular história de amor envolvendo uma faxineira muda e uma misteriosa criatura marítima. Mais um filme adoravelmente estranho para a filmografia de um diretor que, em três décadas de carreira, imprimiu em tela o seu amor pela fantasia, pelo bizarro e - em sua mais pura essência - pelo Cinema. 

Sim, essa é a decoração de uma das casas de del Toro (Foto: Josh White)
Nascido em 1964, na cidade de Guadalajara, Guillermo del Toro logo nos primeiros anos de vida mostrava o seu apreço pelo estranho. Filho de Guadalupe, uma aspirante à poeta que escrevia cartas de Tarô, e de Federico, um empresário que tirou a sorte grande ao ganhar um prêmio na loteria, o então jovem mexicano cresceu numa mansão gótica cercado por cobras, um corvo e ratinhos brancos. Para se ter noção de quão peculiar era o gosto do pequeno Del Toro, um dos seus primeiros brinquedos foi um lobisomem de pelúcia, uma espécie sombria de urso costurado com a ajuda da sua tia-avó. "Confundir o seu pai tornou-se um projeto vitalício", disse o diretor em entrevista ao jornal New Yorker. Ao periódico, numa entrevista cedida em 2011, Del Toro revelou seu apreço pelos "efeitos práticos" já na infância, uma prática que se tornou comum em algumas das suas assustadoras pegadinhas. "Colódio é o material usado para fazer cicatrizes. Você coloca uma linha em seu rosto, e ele se contrai e puxa a pele. Quando criança, eu comprava colodões em lojas de teatro, e eu colocava em meu rosto e assustava a babá.", confidenciou o versátil cineasta. “Tudo o que sou, no sentido da compulsão artística e das histórias que conto, vem dos meus primeiros 11 anos”, disse à revista Gatopardo. “Acredito que quem somos na essência se forma nesses primeiros anos, depois passamos a vida remendando o que se rompeu e construindo o que não”. Já ao jornal El Pais, Guillermo falou também sobre as suas influências, lembrando não só dos populares Monstros da Universal, mas também da própria cultura mexicana. "Em meu país existe uma tendência à fabulação, o que chamamos de alebrijes: mundos fantásticos que se aproximam do mágico o máximo possível. Cresci nos anos sessenta, vendo o cinema fantástico da Universal e o de terror da Hammer, assim como uma enorme invasão de caricaturas e filmes de ficção científica japoneses. Foi um momento muito rico e tudo isso convergiu em minha imaginação de garoto.", o que explica o seu apreço pelos efeitos práticos, um dos elementos mais autorais da sua filmografia, e, em especial, pela criatura de Frankenstein, principalmente a versão interpretada por Boris Karloff. 


Longe de ser apenas mais um "fanboy", Guillermo Del Toro buscou nos anos seguintes referência em obras mais "alternativas". Ao site Omelete, numa entrevista dada em 2006, o realizador definiu o seu perfil nerd e admtiu não ser (ou ter sido) um grande entusiasta dos quadrinhos mais populares. "Eu costumo acompanhar mais a obra de artistas underground. Eu adoro Jim Woodring, Robert Crumb, Richard Corben... Histórias de super-heróis realmente não são para mim. Eu achava aquilo muito chato mesmo quando eu era pequeno.", revelou Del Toro que, durante a sua infância\adolescência, moldou o seu gosto graças a revistas como a Heavy Metal. Pouco tempo depois, no Ensino Médio, ele deu seus primeiros passos no cinema. Numa espécie de estreia não oficial, del Toro narrou num curta amador as desventuras de uma criatura vinda de um banheiro que, ao se deparar com os humanos, os achou tão repugnantes que decidiu voltar para o esgoto de que saiu. Ou seja, já naquela época, ele exibia o seu modo particular de enxergar os monstros, defendendo que os homens podem ser bem mais assustadores do que qualquer criatura mitológica. Um fato que, diga-se de passagem, Guillermo experimentou na pele anos mais tarde, mais precisamente em 1998, quando o seu pai foi sequestrado e mantido em cativeiro por 72 dias. Após o pagamento de dois resgates, Federico foi libertado e pouco tempo depois a família Del Toro desembarcou nos EUA em busca de segurança. Foi no México, porém, que o então jovem realizador iniciou a sua formação profissional. Após se graduar no Centro de Investigação e Estudos Cinematográficos, em 1983, ele deu seus primeiros passos dentro da indústria ao publicar um livro ensaio sobre Alfred Hitchcock inspirado por Pássaros, uma obra sobre a capacidade dos filmes de Terror, mesmo não "vinculados" à realidade, poderem criar o mais puro reflexo de mundo. Dois anos depois, em 1985, Del Toro inaugurou a sua própria empresa de efeitos visuais, a Necropia, uma companhia para produções de baixo orçamento local que, obviamente, só o ajudou a aprimorar a sua técnica e a estabelecer a sua visão de cinema. 

Ron Perlman e del Toro na época do lançamento de Cronus (1993)
Curiosamente, porém, a sua estreia em longas-metragens demorou a sair do papel. Com o 'know-how' necessário para produzir uma grande obra, Guillermo del Toro mostrou o seu cartão de visitas no cultuado Cronos (1993). Iniciando a sua frutífera parceria com Ron Perlman, o longa, estrelado pelo saudoso astro argentino Fredericco Luppi, ganhou relevância internacional ao contar a história de um vendedor que, após entrar em contato com um artefato secular, ganha vida eterna e passa a ter sede por sangue. Numa quebra de expectativas, entretanto, Del Toro flertou com o humor ao criar um vampiro humano e pacífico, uma figura paterna que não que matar e dorme numa caixa de brinquedos abraçado a animais de pelúcia. Uma abordagem inusitada que, inesperadamente, foi recebida com entusiasmo no Festival de Cannes, rendendo a Del Toro não só o prêmio Mercedez-Benz Award, como também a projeção internacional que ele precisava para alçar voos mais altos. O necessário para leva-lo a Hollywood. Como de costume, no entanto, Guillermo viu a sua “liberdade” evaporar dentro da indústria durante a produção do esquecível Mutação (1997), o seu primeiro grande trabalho nos EUA. Convivendo com a pressão dos grandes estúdios, no caso a Miramax, Del Toro tentou imprimir o seu estilo, os monstros estavam presentes, mas o (escuro) longa sobre um ataque de insetos gigantes nos esgotos de Nova Iorque não alcançou o resultado esperado. Segundo o artigo da New Yorker, ele tentou usar a sua visão, investir em efeitos práticos e monstros mais impactantes, mas o estúdio considerou o trabalho "entediosamente artístico" e contratou um diretor de segunda unidade para preencher o filme com "sustos fáceis". Recebido de maneira morna pela crítica, Mutação foi um fracasso comercial nos EUA, ficando abaixo do custo de produção (cerca de US$ 30 milhões) ao render modestos US$ 25 milhões. A influência externa pesou aqui. 

Retorno às origens 


Decepcionado com o 'modus operandi' dos grandes estúdios e com o insucesso de Mutação, Guillermo Del Toro retornou ao México para fundar a sua própria produtora, a The Tequila Gang, e tirar do papel no seu mais novo projeto, o fantástico A Espinha do Diabo (2001). Com a liberdade para dar voz aos seus monstros, o realizador viajou para a Espanha para nos brindar com uma sombria fábula de guerra. Com Federico Luppi novamente como protagonista, Eduardo Noriega como o vilão e um talentoso elenco infantil, Del Toro misturou fantasia e realidade ao narrar as desventuras de um grupo de meninos órfãos que, em plena Guerra Cívil, precisam lidar com a presença de um fantasma enquanto entram em rota de colisão com um agressivo ex-interno. Tenso, imersivo e ao mesmo tempo delicado, o longa reforçou a capacidade do diretor em usar a fantasia como o espelho da realidade, explorando elementos como assombrações, criaturas mitológicas e o medo do desconhecido como o ponto de partida para a discussão de temas bem mais complexos e profundos. Em entrevista recente ao jornal El Pais, Del Toro saiu em defesa dos geralmente subestimados filmes do gênero, realçando a sua importância e as inúmeras possibilidades permitidas pelo segmento. "Com melhores e piores resultados, estou há um quarto de século fazendo-o. Em minha carreira existe uma coerência que permite que as pessoas digam: “Bom, isso é o que ele faz, não importa como se chama”. Em todo caso, o gênero nos deu algumas das imagens primordiais do cinema: Nosferatu, o Frankenstein de James Whale, Lon Chaney... O cinema nasce com duas vocações: a da crônica, encarnada pelos Lumière, e a de fábula, por Méliès. Inevitavelmente, ambas se combinam. Tolkien expressou uma máxima preciosa em seu ensaio Sobre Contos de Fadas: “É preciso fazer o mundo suficientemente reconhecível para nos ancorar em uma realidade e suficientemente mágico para nos transportar para fora dela.", afirmou um diretor convicto da sua arte. 

Impulsionado pelo êxito internacional de A Espinha do Diabo (2001), Guillermo Del Toro retornou a Hollywood para tirar do papel o ótimo Blade II (2002), uma das raras continuações à altura (quiçá superior) do original. Numa época em que os filmes inspirados em histórias em quadrinhos figuravam no lado B da indústria, um status que, diga-se de passagem, viria a ser modificado meses mais tarde com o triunfo de Homem-Aranha (2002), o mexicano elevou o nível da produção ao imprimir o seu estilo em tela, investindo pesado em efeitos práticos e na maquiagem. Responsável pela concepção do interessante vilão Nomak, um vampiro mutante pálido (nitidamente inspirado por Nosferatu) com um visual assustadoramente particular, Guillermo entregou o melhor filme da trilogia, uma adaptação com uma pegada prudentemente 'gore' e empolgantes sequências de ação. Com orçamento de US$ 54 milhões, o longa estrelado por Wesley Snipes se tornou um sucesso de público ao faturar US$ 155 milhões ao redor do mundo, mostrando que a estética proposta por Del Toro poderia ser bem rentável. Diante da iminente retomada dos filmes de super-herói, o realizador mexicano mostrou a sua criatividade (e a sua reconhecida nerdice) ao se manter no gênero com um personagem praticamente desconhecido pelo grande público, o carismático Hellboy (2004). 

Del Toro, Ron Perlman, Selma Blair e Doug Jones no set de Hellboy 2
Ao lado do velho parceiro Ron Perlman, Guillermo Del Toro fez jus ao seu apreço pelas produções 'undergrounds' ao levar para tela grande o personagem idealizado por Mike Mignolla, um demônio criado por um zeloso homem que resolve usar os seus poderes em prol da humanidade. Valorizando a face mais humana dos seus monstros, ele encontrou no Hellboy uma síntese da sua visão de cinema, uma figura que, apesar da sua aparência maligna e do seu temperamento irritadiço, se revela uma criatura bondosa e altruísta. Fazendo um inteligente uso do subtexto bélico, os nazistas são os grandes antagonistas da trama, o realizador encantou os fãs do gênero (e a crítica como um todo) ao investir pesado na construção de mundo e nos personagens inusitados. Apesar dos impressionantes efeitos práticos, entretanto, Hellboy não se saiu tão bem nas bilheterias, ficando abaixo das expectativas ao render modestos US$ 99 milhões mundialmente. Mesmo assim, fiel ao legado do estúdio, a Universal decidiu apostar as suas fichas numa continuação, o memorável Hellboy 2: O Círculo Dourado (2008), extraindo o máximo da mente criativa de Del Toro e do mímico Doug Jones ao investir numa obra imponente recheada de criaturas peculiares e um desenho de produção ainda mais requintado. 


Foi neste meio tempo, porém, que Guillermo del Toro se colocou entre os gigantes com o sublime O Labirinto do Fauno (2006). De volta a Espanha, o mexicano transitou entre o encantamento e o choque ao narrar as desventuras de uma jovem que, durante a Segunda Guerra, se vê obrigada se mudar para o interior e viver sob a guarda de um cruel comandante franquista. Com a sua mãe ameaçada por uma gravidez de risco, ela encontra refúgio na magia, buscando numa criatura mitológica a ajuda necessária para superar os seus obstáculos. Com Ivana Barquero, Sergi Lopez (que vilão!) e Doug Jones em extraordinárias performances, Del Toro expôs o melhor e o pior do ser humano numa fábula de horror poderosíssima, usando o assombroso contexto histórico em prol de uma película lúdica e sombria. Recebida com aclamação pela crítica, O Labirinto do Fauno se tornou um dos raros filmes estrangeiros a brigar em condição de igualdade no Oscar, conseguindo seis indicações e três estatuetas douradas nas categorias Melhor Maquiagem, Melhor Direção de Arte e Melhor Fotografia. O triunfo do trabalho de Guillermo Del Toro, que, mesmo com o seu status dentro da indústria, precisou abrir mão do seu salário para investir em efeitos que os seus patrocinadores\produtores consideravam caros demais. Uma atitude devotada que, verdade seja dita, só foi reconhecida após o êxito de O Labirinto do Fauno. Usando o seu prestígio em Hollywood, Del Toro resolveu investir também na produção de obras de outros promissores realizadores latinos, colaborando com os seus parceiros J.A Bayona (O Impossível), Alejandro G. Iñarritu (Birdman), Andy Muschietti (It) e Jorge R. Gutiérrez em títulos como O Orfanato (2007), Os Olhos de Julia (2008), Não Tenha Medo do Escuro (2010), Mama (2013) e Festa no Céu (2014). Todos filmes com o padrão Del Toro de qualidade. E, porque não, de esquisitice. 

Da frustração ao reconhecimento 

Referência quando o assunto é a construção de grandes mundos cinematográficos, Guillermo del Toro viu o seu caminho cruzar com o do mestre J.R.R Tolkien ao ser escalado para roteirizar e dirigir o épico O Hobbit, prelúdio da popular trilogia O Senhor dos Anéis. Ao lado de outro autêntico nerd, o virtuoso Peter Jackson, o realizador resolveu abraçar o projeto mais audacioso da sua carreira, uma adaptação aventuresca da singela obra de Tolkien. Contratado no início de 2008, del Toro se entregou de corpo e alma à produção, investindo pesado não só no texto da adaptação, como obviamente na concepção dos personagens e dos vastos cenários. Após quase dois anos de muito trabalho, entretanto, ele se viu numa situação delicada. Enfrentando problemas financeiros, a MGM vinha tendo dificuldades para dar o sinal verde para o início da produção, uma situação complexa que, em Junho de 2010, o levou a largar um projeto tão estimado. "À luz dos constantes atrasos no estabelecimento de uma data para o início das filmagens de 'O hobbit', tenho que encarar a decisão mais difícil da minha vida. Após dois anos vivendo, respirando e desenvolvendo um mundo tão rico como a Terra Média de Tolkien, sou obrigado, com grande pesar, a deixar de comandar esses filmes maravilhosos.", disse o mexicano, na época, a um site voltado para os fãs deste clássico da fantasia. Fora do universo O Senhor dos Anéis, Guillermo resolveu investir o seu esforço num outro projeto igualmente imponente. Fã do subgênero Tokusatsu, conhecido popularmente por séries como Ultraman, National Kid, Jaspion e mais recentemente Power Rangers, Del Toro resolveu migrar do Terror para a Aventura Sci-Fi no fantástico Círculo de Fogo (2013). Após uma lacuna de quase cinco anos sem lançar um longa sequer, ele desfilou a sua nerdice ao investir pesado nos pormenores, um trabalho minucioso que se tornou nítido aos olhos do público. 


Indo de encontro a títulos como a frenética saga Transformers, Guillermo del Toro não se contentou somente em explorar as gigantescas sequências de luta envolvendo os kaijus e os jagers. Usando o melhor dos efeitos digitais, o mexicano exibiu o seu refinamento estético ao valorizar as noções de escala, ao reforçar a lentidão das criaturas, a textura dos monstros, tornando os confrontos naturalmente empolgantes para os fãs do gênero. Ao site Den of Geek, o diretor, na época do lançamento, tratou o longa como uma singela declaração de amor a um gênero que fez parte da sua formação. "Bem, eu queria que o filme fosse um poema sincero e amoroso para o gênero kaiju e mecha. As pessoas me perguntam o que é mais difícil fazer, porque é um filme tecnicamente desafiador. (...) Mas eu quero que o filme seja simples. Não como um defeito, mas como uma qualidade que me permite manter o meu eu de 12 anos no comando do que o filme precisa fazer, que é provocar admiração e amor por essas criaturas e robôs. (...) E eu amo [Pacific Rim] com todo meu coração. Assim como o Labirinto do Fauno, é o ponto culminante do que eu queria trazer para um aspecto mais íntimo do meu trabalho. (...) Eu acho que finalmente entreguei um espetáculo na escala e com toda a habilidade que posso, porque fui totalmente apoiado pela Legendary e a Warner Bros.", sintetizou del Toro. Recebido com entusiasmo pela crítica, Círculo de Fogo se saiu bem nas bilheterias ao conseguir US$ 411 milhões ao redor do mundo, sendo US$ 111 milhões em solo chinês, reaquecendo um subgênero que nos últimos anos ganhou força em títulos como Godzilla (2014) e o recente Kong: A Ilha da Caveira (2017). 


Do gigantismo dos filmes de monstros para a sutileza do horror gótico, Guillermo del Toro voltou a brincar com os efeitos práticos no envolvente A Colina Escarlate (2015). Num instigante filme de mansão mal assombrada, o mexicano encheu a tela de veracidade ao construir um deteriorado casarão no set de filmagens, extraindo o máximo da soturna atmosfera de épica ao investir numa premissa mais passional que o de costume na sua filmografia. Com Jessica Chastain e Tom Hiddleston em grandes performances, o longa mostrou que del Toro não havia perdido a mão dentro do gênero que o consagrou, realçando que o ciúme e a sensação de posse podem ser mais perigosos do que qualquer assombração. O seu amor pelos monstros da fantasia, entretanto, atingiu o seu ápice no laureado A Forma da Água. Seguindo os passos dos seus companheiros de pátria (e Oscarizados) Afonso Cuarón (Gravidade), Alejandro G. Iñarrito (O Regresso) e Emmanuel Lubezki (Birdman), o realizador voltou ao radar das grandes premiações ao construir um romance poético e realístico. E a inspiração, como de costume, veio da sua infância, de uma frustração envolvendo um grande clássico do cinema. “Vi O Monstro da Lagoa Negra (1954) na televisão, essa criatura nadando por baixo de Julie Adams e seu maiô branco. Eu me apaixonei pelos dois e pela ideia desse amor: queria que acabassem juntos, coisa que não aconteceu. De modo que ficou gravada em minha cabeça a ideia de corrigir esse erro cinematográfico (risos). Procurei muitas formas, até que em 2011, tomando café da manhã com Daniel Kraus (co-escritor de Trollhunters) ele me disse: - Tenho essa ideia de uma mulher que trabalha como faxineira em um escritório ultrassecreto no qual há um anfíbio”. Isso me pareceu o caminho perfeito, porque era pouco comum. Se você vai me contar um filme de super-herói, me interessa saber o que acontece quando eles vão embora: quem lava a roupa do Super-Homem, quem limpa esse local chamado A Fortaleza da Solidão. Com meu filme acontece a mesma coisa: prefiro centrar-me no ponto de vista do monstro e das pessoas que tomam conta dele.", revelou ao El Pais. 

del Toro ao lado de Sally Hawkis e Doug Jones
Ambientado na Guerra Fria, o longa, mais uma vez, atesta a sagacidade de Guillermo del Toro ao extrair a realidade da fantasia, usando uma personagem muda, a independente Elisa (Sally Hawkins), como a porta voz de um grito de liberdade contra a repressão e o preconceito. "Eu sou um imigrante, como Alfonso (Cuarón), Gael (Garcia Bernal) e muitos de vocês. A melhor coisa no nosso setor é poder apagar as linhas, as fronteiras. Muros só vão piorar as coisas.", sintetizou del Toro no seu discurso de agradecimento no prêmio de Academia de Artes de Ciências Cinematográficas. Fiel aos seus monstros, o vencedor do prêmio de Melhor Direção no Oscar, no Globo de Ouro e no Sindicato dos Diretores, o DGA, o realizador escreveu o seu nome dentro do gênero ao valorizar a anormalidade, ao defender o diferente\original numa indústria movida pelas apostas fáceis e pela lucratividade. "Eu não me vejo fazendo um filme "normal". Eu amo a criação dessas coisas - adoro a escultura, adoro a coloração. A metade da alegria é a fabricação do mundo, as criaturas.", frisou o diretor ao New Yorker, numa ode não só ao viés mais artesanal da Sétima Arte, como também aos seus tão estimados monstros.

Matéria Atualizada no dia 05\03

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