sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Planeta dos Macacos: A Guerra

O triunfante fim de uma trilogia que justificou a sua existência


Lançado sem grandes pretensões em 2011, Planeta dos Macacos: A Origem parecia ser mais um daqueles reboots caça-níquel que frequentemente brotam em Hollywood. Que engano. Mais do que elevar o patamar do advento da atuação digital, o longa dirigido por Rupert Wyatt justificou a sua existência ao se revelar uma prequel densa e instigante, um blockbuster capaz de reverenciar o filme original sem esquecer de atualizar a franquia. Indo além dos excepcionais efeitos visuais, a nova versão conseguiu oferecer uma visão mais contextualizada sobre o tema, encontrando na fábula distópica criada por Pierre Boulle o subtexto necessário para falar sobre a involução humana, a opressão das minorias e a nossa autodestrutiva relação com o meio ambiente. Um teor questionador que ecoou ainda mais alto no magnifico Planeta dos Macacos: O Confronto (2014), uma pequena obra-prima recheada de personagens tridimensionais, nuances genuinamente humanas e um inspirado viés político. Com uma forte carga dramática, o filme dirigido pelo talentoso Matt Reeves não só resgatou a aura pós-apocalíptica do clássico de 1968, como também se aprofundou no crescente clima de tensão entre os símios e os humanos, integrando o passado e o presente da saga numa poderosa continuação. O fim estava próximo. E ele chegou em grande estilo. Marcando o triunfante desfecho desta memorável trilogia, Planeta dos Macacos: A Guerra encanta ao mostrar o tão alardeado combate final sob um prisma humano e corajosamente intimista. Sem a intenção de tratar o conflito dentro de um contexto novamente belicoso, Matt Reeves esbanja sensibilidade ao se aprofundar nos conflitos do indomável César, o desconstruindo diante do público ao expor o seu lado falho e impulsivo. Na verdade, embora se preocupe em estreitar os laços com a mitologia original, o realizador norte-americano acerta ao entender que o reboot já não era mais sobre a destruição da nossa civilização. Por trás disso existia um símbolo, um arco libertário brilhantemente arquitetado, uma jornada densa e reflexiva que, ao ser pontuada com maestria, transforma César num dos protagonistas mais complexos da história recente do Cinema. E a trilogia em um dos mais reflexivos estudos sobre a natureza humana.




Inteligente ao tratar a guerra dentro de um contexto bem mais amplo, o roteiro assinado pelo próprio Matt Reeves, ao lado de Mark Bomback, foge do lugar comum ao não reduzir o capítulo final ao duelo entre humanos e macacos. Não espere, portanto, gigantescas sequências de ação ou as grandiosas batalhas do excelente filme anterior. Aqui, por mais que o tom da película siga em níveis épicos, o argumento não se vê obrigado a associar a derrocada dos homens à ascensão evolutiva da raça símia. Sem querer revelar muito, Reeves é perspicaz ao se conectar com a versão clássica do Planeta dos Macacos, ao fundamentar o desesperançoso discurso do aprisionado Taylor (Charlton Heston), estreitando os laços com o passado da franquia ao realçar o tão comentado poder de autodestruição\involução do ser humano. Embora o longa faça questão de introduzir um novo e imponente antagonista, o insano Coronel (Woody Harrelson), o diretor não se sente seduzido em levar o embate para uma esfera macro. Por trás da iminente guerra existem conflitos bem mais íntimos, uma rixa pessoal sólida e explosiva, um arco recheado de nuances que não deixa o longa repousar no terreno da unidimensionalidade. O que acontece, aliás, é justamente o contrário. Nenhum dos personagens soa raso ou maniqueísta. As justificativas são sempre lógicas e refletem o devastador impacto do confronto na rotina dos envolvidos. Buscando referência em títulos como Apocalypse Now (1979) e Platoon (1986), o novo Planeta segue acompanhando os passos de César (Andy Serkis), um líder cada vez mais acuado e pressionado diante da hostil presença humana. Cansado de perder os seus "irmãos" nos recorrentes combates, ele decide seguir os conselhos do seu filho Rocket (Terry Notary) e levar os primatas para uma área distante dos militares sobreviventes. Os seus planos, porém, são drasticamente modificados quando ele é surpreendido por uma repentina incursão inimiga. Tomado pelo ódio, César decide colocar um fim no homem por trás dos ataques, sem saber que durante o caminho iria se vê obrigado a encarar os seus mais velhos e temidos fantasmas.


De longe o filme mais íntimo da franquia, Planeta dos Macacos: A Guerra se revela um primoroso estudo de personagem. Após introduzir o sincero vínculo de César com a raça humana e o seu forte ideal pacifista\libertário nos dois filmes anteriores, Matt Reeves brilha ao se aprofundar na psique deste poderoso líder. Com um pleno domínio sobre o arco do protagonista, ele o desconstrói diante do espectador ao expor o reflexo da guerra na conduta de uma figura tão racional. Entendendo que a trilogia estava intrinsecamente ligada ao revolucionário César, o realizador é sutil ao estabelecer as transformações do "herói", ao mostrar a sua nítida deterioração sentimental diante das recorrentes perdas. Fazendo um primoroso uso dos silêncios e da expressividade de Andy Serkis, Reeves mostra maturidade ao investigar estas questões mais humanas, ao revelar a faceta errática e irracional do personagem. Sem um pingo de condescendência, o filme nos mostra um César agressivo, um líder preocupado com o eu antes do nós, uma figura cega pela raiva e pela vingança. Impecável ao desenvolver as mudanças do personagem, o diretor enche a tela de dor e emoção ao traduzir também as consequências dos seus mais impensados atos. Num primeiro momento, o argumento é cuidadoso ao dialogar com o longa anterior, mais precisamente com a figura de Koba (Toby Kebbell), expondo as impacto da morte do ex-aliado na cabeça do protagonista. Através de inspirados 'insights', Reeves faz questão resgatar o choque ideológico entre os dois, transformando o dissidente numa espécie de fantasma. Afinal de contas, o futuro provou que Koba não estava tão errado assim. Já num segundo momento, o realizador é objetivo ao evidenciar as sequelas desta postura individualista junto aos seus "irmãos", preparando o terreno para a retomada de César sem precisar amenizar os seus dilemas mais íntimos. Ou seja, embora a sua convicta liderança siga rendendo sequências arrepiantes, o estrago foi feito e o roteiro é maduro o bastante para respeitar o novo estado do espírito do protagonista.


O grande diferencial da nova trilogia Planeta dos Macacos, entretanto, segue sendo a estreita conexão entre os personagens. Assim como nos longas anteriores, Matt Reeves é honesto ao trabalhar com sentimentos como a fidelidade, a amizade e o forte pano de fundo familiar, permitindo que o público compreenda o elo entre os símios e experimente a dor em torno das baixas de guerra. O que fica bem claro, por exemplo, logo na primeira cena pós-batalha, um primoroso plano sequência capaz de traduzir o peso de cada uma das mortes no devastado olhar dos primatas. O mesmo, aliás, acontece na devotada relação entre César e o sábio Maurice (Karin Konoval, magnífica), o corajoso Luka (Michael Adamthwaite) e o astuto Blue Eyes (Max Lloyd-Jones), um vínculo extremamente bem construído que rende os momentos mais comoventes da película. Um predicado que, diga-se de passagem, também se reflete nos marcantes novos personagens. Com um rosto angelical e uma expressiva performance silenciosa, a pequena Amiah Miller rouba a cena como a afetuosa Nova. Decisiva para a ampliação da mitologia da franquia, principalmente quanto o assunto é o processo de involução humana, a jovem ganha um arco terno e relevante. Na verdade, Reeves esbanja delicadeza ao desenvolver a crescente relação entre ela e César, ao utiliza-la como um contraponto, a lembrança de um passado não muito distante, uma subtrama bela e recheada de sequências memoráveis.


Um esmero que, aliás, se reflete também na presença do amedrontado Bad Ape (Steve Zahn, excelente), um inspirado alívio cômico que não fica reduzido a tal função. Um bem-vindo respiro diante da ameaçadora presença do Coronel, um antagonista obsessivo que só eleva o nível deste capítulo final. Impulsionado pela presença insana de Woody Harrelson, Reeves cria um vilão odioso, opressor, mas dono de coerentes justificativas. Muito mais do que um mero nêmesis, o militar surge com verdades bem lógicas, um arco recheado de nuances particulares que se correlaciona diretamente com a jornada de César. Até porque, ainda que em lados opostos, os dois sobreviveram, lideraram as suas espécies e tiveram que aprender a conviver com as suas respectivas perdas. Fica nítido que eles pertencem ao mesmo mundo e que esse é um universo triste e imperfeito. Desta explosiva relação, inclusive, nascem os momentos mais tensos da película, takes vigorosos potencializados pela condução intimista de Reeves. Num todo, aliás, apesar da grandiosidade cênica do filme, chama a atenção o esmero do realizador na condução do drama, na valorização dos diálogos e da expressividade dos personagens, preenchendo a trama com cenas pessoais e inesperadamente sutis.


Em meio a tantos predicados narrativos, no entanto, o novo Planeta dos Macacos merece ficar conhecido como uma peça chave no triunfo da atuação digital. No trabalho mais impactante da trilogia prequel, Matt Reeves enche a tela de sentimento ao se concentrar no olhar dos primatas, nos seus gestos e na comunicação via linguagem de sinais, revolucionando o gênero ao construir figuras animadas inquestionavelmente verossímeis. Acompanhando a evolução na técnica de captura de movimentos, a equipe de animadores é minuciosa ao injetar vida nos olhos dos símios, ao explorar as variadas mudanças de expressão, os tornando absurdamente críveis perante o espectador. Além de respeitar as diferenças físicas entre as espécies, Reeves, aqui, reforça também o crescente antropomorfismo e a movimentação híbrida dos macacos, indo do animalesco ao humanoide com extrema naturalidade. Uma evolução tecnológica que se torna mais evidente graças a estupenda performance de Andy Serkis. Um mestre na arte da atuação via 'motion capture', o astro de O Senhor dos Anéis e King Kong hipnotiza ao encarnar o complexo César, externando as suas emoções e a deterioração comportamental do líder primata com um grau de intimidade cada vez mais raro em Hollywood. Com um olhar penetrante, uma voz gutural e uma presença cênica imponente, Serkis nos faz sentir a dor do seu personagem, a sua raiva, resiliência e compaixão, nos presenteando com um protagonista à altura desta trilogia. Nem só de efeitos visuais, porém, vive o novo Planeta. Com o apoio luxuoso da nebulosa fotografia selvagem de Michael Seresin (O Expresso da Meia Noite), Reeves amplia o escopo da trama ao investir em expansivos planos gerais\panorâmicos, tirando o máximo das variadas paisagens naturais ao criar sequências poderosas. Entre praias, florestas e gélidas montanhas, o realizador preenche a trama com enquadramentos que mais parecem obras de arte, momentos magníficos incrementados pela belíssima iluminação, pela rica composição cênica e pelos suaves movimentos de câmera. A cena em que o Coronel foge a luz do luar, por exemplo, é digna de aplausos e atesta o virtuosismo do talentoso Matt Reeves. Somado a isso, os pontuais takes de ação são urgentes, trágicos e energicamente caóticos, daquelas que fazem jus ao subtítulo do longa. 


Embalado pela imponência clássica da trilha sonora de Michael Giacchino, soberba ao equilibrar tambores e instrumentos de sopro tribais com acordes delicadíssimos, Planeta dos Macacos: A Guerra pontua a jornada do inconquistável César com personalidade, intimismo e uma sólida carga emocional. Por mais que o roteiro se renda à algumas conveniências narrativas, no clímax, em especial, a maior delas soa exagerada e desnecessária, Matt Reeves arremata esta memorável trilogia com uma obra completamente integrada ao clássico de 1968. Um filme sobre o fim, mas também sobre o recomeço. Embora funcione plenamente enquanto um autoral produto solo, o reboot é sagaz ao "dialogar" com o passado da franquia, brincando com nomes e símbolos (a boneca volta a ter uma participação decisiva) ao aparar as arestas da mitologia original numa obra crítica (temas como a escravidão e a opressão pontuam a trama com maestria), envolvente e genuinamente humana. Sem medo de errar, uma saga que, tal qual o protagonista símio, evoluiu a cada capítulo para se tornar a melhor trilogia lançada desde o épico O Senhor dos Anéis. Um blockbuster com conteúdo e um raro senso de conclusão que, infelizmente, parece cada vez mais em extinção dentro de Hollywood.


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