sexta-feira, 28 de julho de 2017

Em Ritmo de Fuga

Edgar Wright compõe um musical de ação ao som de tiros, cantadas de pneu e um setlist da melhor qualidade

Um diretor em perfeita sintonia com a sua arte, o estiloso Edgar Wright é um daqueles raros profissionais da indústria do cinema que privilegiam a qualidade em detrimento da quantidade. Embora (ainda) não tenha o status de nomes como Christopher Nolan, Wes Anderson, Guillermo Del Toro e (claro!) Quentin Tarantino, o pai da Trilogia Corneto já merece figurar nesta prateleira de realizadores autorais que causam uma enorme expectativa a cada novo projeto lançado. Dono de um afiado senso de humor, uma referencial linguagem pop e uma assinatura indiscutivelmente moderna, Wright fez da despretensão, da versatilidade e do apreço pelo fantástico mundo do cinema o grande diferencial da sua filmografia, expondo a sua reconhecida nerdice/cinefilia em títulos como a paródia de horror Todo Mundo Quase Morto (2004), o satírico 'buddy cop movie' Chumbo Grosso (2007) e o empolgante Scott Pilgrim contra o Mundo (2010). Um predicado que fica bem claro no seu mais novo trabalho, o magnífico Em Ritmo de Fuga. Numa mistura completamente original, Wright enche a tela de estilo ao construir um filme de assalto ágil e revigorante, uma obra pulsante do primeiro ao último acorde. Ou melhor, do primeiro ao último minuto de projeção. Com um fantástico elenco em mãos, capitaneado pelo surpreendente Ansel Elgort, o realizador britânico mostra o seu vasto conhecimento cinematográfico ao se apropriar dos mais populares estereótipos do gênero, os reinventando numa película com uma voz indiscutivelmente singular. Um charmoso filme de ação guiado pelos magnéticos personagens, pelas insanas sequências de perseguição, pela descolada montagem e pela eclética trilha sonora. Uma "composição" urbana e genuinamente musical que transforma Baby Driver numa experiência única.


Tratar Em Ritmo de Fuga como uma engenhosa peça musical, aliás, não me parece nenhum exagero. Mais do que "falar" através do eclético setlist, Edgar Wright ousa ao compor uma minuciosa partitura em formato fílmico, uma obra capaz de encontrar a musicalidade nos mais variados (e improváveis) efeitos sonoros. Fazendo um inspirado uso do primoroso desenho de som, o realizador impressiona ao atrelar os ruídos urbanos, os barulhos de tiros, das batidas de carro e até mesmo do ronco dos motores à trilha, sincronizando música e ação numa mixagem realmente inédita dentro do gênero. Qualquer um destes trailers moderninhos soa defasado diante do material aqui apresentado. Não espere, porém, um filme picotado e pouco espontâneo. No auge da sua forma, Wright suaviza os inúmeros cortes ao utilizar a estilosa montagem em prol da trama, reforçando a genialidade (musical e nas pistas) e o irresistível carisma do protagonista em cenas vibrantes, dinâmicas e naturalmente desafiadoras. Por diversas vezes, inclusive, ele se arrisca ao construir pontuais números musicais, momentos inesperados que não só ajudam a estabelecer a personalidade de Baby, como também exibem o seu virtuosismo estético na composição destas passagens mais cativantes. O que fica bem claro, por exemplo, na encantadora cena pré-crédito inicial, um adorável plano sequência que acompanha os dançantes passos do piloto até o prédio que guardava os lucros da sua última missão. Logo neste take inicial, inclusive, percebemos o esmero do diretor na concepção dos cenários vivos e coloridos, um ambiente interativo que se torna decisivo no desenvolvimento dos alucinantes e milimetricamente coreografados takes de ação.


Nem só de estilo, entretanto, vive Baby Driver. Uma mistura de Caçadores de Emoções (1991), com Drive (2011) e o musical La La Land (2016), Em Ritmo de Fuga não se prende aos limites do gênero ao investir numa releitura pop e abrangente. Assim como já havia feito na Trilogia Corneto, Edgar Wright se apropria dos clichês de um segmento cinematográfico, no caso os populares filmes de assalto, com extrema originalidade, os reciclando em prol de uma premissa bem mais moderna e refrescante. No projeto menos fantasioso da sua filmografia, o realizador a exibe a sua reconhecida versatilidade ao transitar entre os gêneros com enorme destreza, preenchendo a trama com o seu particular senso de humor, uma generosa dose de romance, uma pitada de drama, um gradativo clima de tensão e muita (mais muita) ação. Com roteiro assinado pelo próprio Wright, Em Ritmo de Fuga narra a jornada de Baby (Egort), um garoto genial que era uma verdadeira fera atrás do volante. Após se envolver com o perigoso Doc (Kevin Spacey), o cérebro por trás de uma organização criminosa, ele se viu obrigado a participar de uma série de grandes assaltos, sempre ao lado do 'badass' Buddy (Jon Hamm), da criminosa "vida bandida" Darling (Eiza González), do instável Batts (Jamie Foxx) e do provocador Griff (Jon Bernthal). Acreditando que estava próximo de quitar a divida com o seu "mentor", Baby decide se aproximar da expansiva Debora (Lily James), uma garçonete comunicativa que só queria mudar de ares. Quando tudo parecia finalmente se encaixar na vida do rapaz, no entanto, uma repentina missão surge para ameaçar a sua nova rotina, expondo os verdadeiros perigos por trás do mundo do crime.


Embora num primeiro momento a premissa de Baby Driver não soe tão inovadora assim, Edgar Wright mostra perspicácia ao utilizar velhas fórmulas dentro de um contexto novo e empolgante. Fazendo um criativo uso dos arquétipos do gênero, o argumento é habilidoso ao dar nuances mais sólidas aos principais personagens, permitindo que eles ganhem inesperadas camadas. Pintado inicialmente como um piloto de fuga 'cool' e bem intencionado, o intrépido Baby, por exemplo, é dono de um arco denso e intimista, uma subtrama emotiva que justifica as suas atitudes com extrema sensibilidade. Sem querer revelar muito, o comportamento musicalmente distante do garoto é brilhantemente explicado ao longo da película, uma sacada de mestre que só reforça a aura descolada do protagonista. O mesmo, aliás, acontece com o cerebral Doc e o imponente Buddy. Por mais que os dois sejam inicialmente reduzidos ao rótulo que os precedem, com o avançar da trama a dupla ganha uma bem-vinda tridimensionalidade, o que se torna decisivo para a construção do excepcional último ato. Somado a isso, Wright esbanja categoria ao explorar a presença cênica dos magnéticos personagens. Indo além das preocupações narrativas, o realizador faz questão de reforçar o potencial imagético dos assaltantes, realçando o charme e a aura 'badass' do grupo ao apostar rotineiramente em enquadramentos posados e alguns expressivos planos fechados. Dentro do explosivo clímax, inclusive, Wright presta uma nítida homenagem ao mestre Sérgio Leone, capturando a expressão dos "duelistas" motorizados numa fantástica sequência de ação. Outro ponto que agrada, e muito, é a construção do romance entre Baby e Debora. Como se não bastasse a invejável química entre Ansel Elgort e Lily James, Wright não se apressa ao introduzir esta cativante relação, permitindo que o público cria uma sincera identificação com o casal. É aqui, aliás, que o realizador tira o melhor proveito da 'vibe' cult do longa, utilizando o seleto setlist, os coloridos cenários e a vigorosa fotografia de Bill Pope (Matrix) como um agente catalisador deste caso de amor. 


Não se engane, porém, com a versatilidade narrativa proposta por Edgar Wright. Por mais que a comédia, o romance e o drama tenham vez ao longo dos envolventes 110 minutos de projeção, Em Ritmo de Fuga é um filmaço de ação. Com uma fluidez cênica de fazer inveja aos maiores nomes do gênero, o diretor põe a mão na massa ao compor as insanas sequências de perseguição, investindo em takes realísticos, nervosos e imprevisíveis. Indo de encontro ao escapismo absurdo da franquia Velozes e Furiosos, Wright busca referência em clássicos como Operação França (1971), Mad Max (1979) e Ronin (1998) ao apostar nos efeitos práticos, na velocidade em detrimento dos truques digitais, incrementando as empolgantes cenas de fuga com manobras alucinantes e engenhosos obstáculos. Embora já tivesse mostrado os seus predicados no gênero em Chumbo Grosso (2007), o realizador britânico eleva o nível da brincadeira ao colocar o espectador no centro da ação, realçando a plasticidade (e o senso de urgência) das cenas mais frenéticas ao investir numa afiada montagem, em impactantes planos abertos, em imersivos planos internos e em enquadramentos minuciosamente pensados. Me arrisco a dizer, inclusive, que desde Mad Max: Estrada da Fúria não via um "balé automobilístico" tão bem orquestrado e compreensível aos olhos do espectador. Somado a isso, é interessante ver o cuidado de Wright ao trabalhar a crescente escala de tensão. Ainda que ao longo do primeiro ato a trama transite por um terreno mais "seguro", o longa é sutil ao estabelecer o clima de ameaça em torno de Baby, ao expor as consequências da vida no crime. A violência surge sorrateiramente, a tensão cresce gradativamente, uma harmoniosa mudança de tom que pontua a jornada de Baby com fúria e energia. Na hora de tirar o dez, porém, o roteiro peca ao "proteger" exageradamente o protagonista, se rendendo a algumas (poucas, bem poucas) soluções convenientes. Além disso, o longa sofre uma ligeira queda de ritmo no segundo ato, um deslize quase imperceptível diante dos inúmeros trunfos da película.


Por fim, Baby Driver é também um filme de atores. E não podemos esquecer disso. Enquanto Kevin Spacey, Jamie Foxx e especialmente Jon Hamm (fantástico!) adicionam o peso necessário ao longa, Ansel Egort e Lilly James criam um casal adorável, duas figuras radiantes que se tornam a força motora deste precioso longa. Em suma, tal qual o carismático Baby, Em Ritmo de Fuga encanta pela forma com que se expressa através da sua música. No trabalho mais elaborado da sua inventiva carreira, Edgar Wright eleva o nível da sua arte ao tirar do papel um blockbuster com potencial cult, um filme de assalto estiloso e tecnicamente virtuoso que preenche as suas brechas narrativas ao som de Queen, The Commodores e Barry White. E com esse setlist qualquer viagem fica bem mais memorável.


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