terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

A Menina que Roubava livros


Um retrato inocente sobre a Segunda Guerra Mundial, digno do best-seller que o inspirou.

Baseado no best-seller assinado por Marcus Zusak, A Menina que Roubava Livros chega aos cinemas trazendo no seu calcanhar uma série de fãs desta obra literária. Somente no Brasil, mais de dois milhões de exemplares foram vendidos, fato que colocou a adaptação entre as mais aguardadas de 2014. Ciente de toda esta expectativa, o diretor Brian Percival - conhecido pelo seu trabalho na série Downton Abbey - tem como grande mérito o fato de conseguir encontrar um clima de inocência para abordar as consequências envolvendo a Segunda Guerra Mundial. Permitindo um pouco mais de cor para esse nebuloso período, o drama aposta numa excelente direção de arte e no carisma da hipnotizante Sophie Nélisse para narrar a história de uma menina que "encontrou a morte três vezes e saiu suficientemente viva das três ocasiões...". 

E a criança em questão é a pequena Liesel (Sophie Néliss), uma jovem que passa pelo pior momento de sua vida. Como se não bastasse a morte do seu pequeno irmão, a menina acaba tendo que se separar também de sua mãe comunista, em função do fortalecimento do Nazismo. Abalada com as perdas, Liesel acaba sendo entregue para o casal Hans (Geofrey Rush) e Rosa (Emilly Watson), dois humildes moradores do interior da Alemanha. Ainda tímida em meio a essa nova família, Liesel acaba se afeiçoando ao carismático Hans, uma figura amável e extremamente carinhosa, completamente diferente de sua sisuda esposa. Buscando se enturmar, ela se aproxima também do cativante Rudy (Nico Liersch), um menino que sonhava em se tornar um corredor profissional, e tinha como grande ídolo o velocista Jesse Owens. Desta improvável relação, acaba nascendo um forte laço de amizade, que só não era maior do que a paixão de Liesel pelos livros. No entanto, sem saber ler nem escrever, a jovem alimenta uma grande curiosidade sobre uma obra em especial, a última recordação de seu pequeno irmão. Com a ajuda de Hans, Liesel começa a desvendar o mundo por trás das palavras, se tornando ávida por mais leituras. Tanto que nem mesmo a iminente eclosão da segunda guerra a impede de começar a roubar alguns livros. O que ela não esperava, no entanto, era que um visitante inesperado aparecesse em sua família: o judeu foragido Max (Ben Schnetzer). Desta novidade nasce uma intensa amizade, que acaba chamando a atenção do anjo da Morte (Roger Allam). 


Confesso que um dos pontos que me levaram a esta história foi a relação de seus personagens com a Morte. Na realidade, o livro é narrado por esse anjo, que se sente atraído pela fantástica história de vida envolvendo a pequena Liesel. Se na obra literária o ceifador tem uma grande participação, nesta adaptação assinada por Michael Petroni, a Morte é menos explorada. O que não é necessariamente um problema. Pelo contrário, já que uma das boas novidades fica pela forma contida como esse "inusitado" narrador guia a trama. Escapando do didatismo excessivo, o roteiro explora de forma pontual o elemento da narração, funcionando muito mais como uma figura complementar a história, do que propriamente narrativa. Com participações profundas e altamente reflexivas, a figura da morte é bem utilizada, contribuindo ativamente para o excelente desfecho. Outro fato que chama a atenção é a forma como o roteiro aborda as mazelas envolvendo a Segunda Guerra. Apesar da baixa classificação etária, 10 anos aqui no Brasil, o diretor Brian Percival aposta em uma estética realística. Extremamente contextualizado, o longa acompanha de perto vários momentos importantes envolvendo esse conflito, incluindo ai a ascensão de Hitler, a perseguição aos judeus, o começo da guerra, a chegada dos aliados e o trágico desfecho para os alemães. Tudo isso sob um interessante ponto de vista infantil, que mesmo sem ser visceral, não omite a triste realidade por traz da ideologia nazista. No entanto, o diretor não mostra essa mesma perícia na condução da trama, que peca pela falta de emoção em alguns momentos. 


Ainda que a história seja bem contada, com direito a um bom ritmo e uma narrativa sólida, alguns pontos importantes do livro não ganham o mesmo impacto na telona. Um deles, por exemplo, é o relacionamento entre Liesel e Max. Fica nítida a falta de profundidade na condução desta importante relação, que perde em intensidade, e acaba sendo salva pelo desempenho dos atores. A relação da jovem com a esposa do prefeito também é mal resolvida, dando a impressão que as sub-tramas ficaram maiores do que o tempo de projeção. Outro fato que incomoda é a opção com relação ao idioma do filme. Apesar de se passar na Alemanha, o longa é falado basicamente em inglês, com alguns diálogos e expressões em alemão. Posso até parecer chato, mas a licença poética tá ai para isso. Na verdade, essa alternativa permitiria que o filme fosse todo falando em inglês, sem qualquer problema. Por outro lado, vale destacar a excelente atmosfera criada. Méritos para a cuidadosa equipe de direção de arte, que acerta na reconstrução histórica dos cenários e dos figurinos, para a bela trilha sonora assinada por John Williams e, claro, para o desempenho de todo o elenco. Principalmente, a atuação da radiante Sophie Nélisse. Apesar da pouca experiência, e do papel de grande responsabilidade, a jovem atriz cria uma cativante e carismática Liesel. É impressionante como a sua personagem vai evoluindo em cena, passando por uma série de emoções de forma crível. Nélisse é seguida de perto pelo também jovem Nico Liersch, muito bem como o alto-astral Rudy. Além dos dois, vale destacar as presenças dos experientes Geofrey Rush, Roger Allam e Emily Watson, que trazem um peso maior ao elenco e tem eficientes desempenhos. Com destaque para Rush e o seu amável personagem Hans, e para Allam, que funciona muito bem como o “curioso” narrador.


Sem querer cair no erro de comparar o livro com o filme, A Menina que Roubava Livros é uma adaptação digna do best-seller que o inspirou. Mesmo sem ter o mesmo impacto da obra literária, o longa dirigido por Bryan Percival consegue capturar a essência da publicação. Com destaque para a precisão na forma como aborda, sob o ponto de vista infantil, as consequências envolvendo a segunda grande guerra. Apostando na inocência de seus protagonistas, o longa também preserva a reflexão que Marcus Zusak possibilita através dos dilemas envolvendo a Vida e a Morte. Uma linha tênue que se estreita ainda mais durante as assombrosas guerras.


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