domingo, 17 de novembro de 2013

Amor Bandido

Apesar da aparência despretensiosa, longa surge como uma das mais intensas fábulas sobre as relações amorosas


O ano de 2013 vem nos apresentando grandes surpresas dentro do cinema. Enquanto muitos "blockbusters", alguns deles de gosto duvidoso, ganham grande repercussão e tomam os cinemas, outros menos conhecidos lutam pelo seu "lugar ao sol". E um desses títulos que merecem esse espaço é Amor Bandido, novo longa do promissor diretor Jeff Nichols, o mesmo do elogiado O Abrigo. Através da inocência de dois jovens do interior, Nichols nos apresenta uma intensa fábula sobre as relações amorosas, marcada por grandes atuações, trama certeira e uma impactante fotografia, que "suga" o espectador para as entranhas do sul dos Estados Unidos. 

Esse, aliás, é o primeiro grande acerto do também roteirista Jeff Nichols: levar uma fábula sobre o amor e a sensibilidade para um lado mais bruto dos norte-americanos. Através do cinema, nos acostumamos a enxergar os homens do interior do Mississípi como majoritariamente "broncos", alguns deles até autoritários e machistas, que não se prendiam a simples questões emocionais, quanto mais a demonstrações românticas. Na verdade, logo na primeira cena de Amor Bandido somos apresentados a esta "pseudo-realidade", quando assistimos a uma tentativa de discussão entre os pais do jovem Ellis (Tye Sheridan). Enquanto a mãe parece gritar com o marido querendo iniciar uma discussão, o pai não dá a mínima atenção, segue lendo o seu jornal, deixando transparecer apenas um olhar de irritação. Tudo isso sob os olhares de Ellis, o grande responsável por conectar a este relato sobre os relacionamentos. Esta primeira impressão, no entanto, acaba se diluindo ao longo das mais de 2 horas de filme. Ao invés de explorar esses estereótipos cada vez mais ultrapassados, Nichols evidência as emoções por traz dos sisudos personagens, e como as relações amorosas influenciaram, ou ainda vão influenciar, a vida de cada um dos envolvidos.


Por falar nela, Mud - no original - narra a história de Ellis, um jovem de 14 anos que parece não querer ser apenas mais um garoto comum. Enquanto seu melhor amigo Neckbone (Jacob Lofland) se entusiasma ao ver uma revista pornô, Ellis parece acreditar mais no amor platônico, principalmente pela bela May Pearl (Bonnie Sturdivant), uma garota mais velha que parece disposta a dar uma "brecha" pra ele. Em meio aos problemas de relacionamento entre os próprios pais, o jovem encontra um escape nas viagens de barco com Neckbone. Numa destas, eles encontram uma ilha deserta e um barco, que em função de uma tempestade, foi parar inesperadamente em cima de uma árvore. Curiosos, os dois decidem fazer desse barco o seu segredo, mas acabam se deparando com um hóspede inesperado. Ele é Mud (Matthew McConaughey), um homem de passado nebuloso, que pede a ajuda dos dois. Ainda que reticentes, os amigos começam a trazer comida para Mud, e pouco a pouco descobrem que ele alimenta uma grande paixão pela bela Juniper (Reese Witherspoon), um problemático caso de amor que vem desde a infância. Tentando reaproximar os dois, Ellis passa a incentivar este reencontro, sem saber que o passado sombrio de Mud está mais próximo do que ele podia esperar. 


Ao explorar a inocência desses dois jovens, em meio a temas bem mais complexos, Jeff Nichols mostra habilidade ao conseguir ampliar essa discussão. Muito em função, é claro, dos interessantes personagens que constroem o filme. A começar por Mud, personagem que dá título ao longa e que representa o grande elo para toda a trama. Apesar de já ser um homem formado, Mud alimenta este mesmo amor platônico pelas mulheres, o que logo de cara o aproxima do inocente Ellis. Chama a atenção a forma como o roteiro explora a relação entre estes dois tipos essencialmente semelhantes, os colocando em contraste com as outras figuras masculinas do longa, como o pai de Ellis (Ray McKinnon), o tio e tutor de Neckbone, Gleen (Michael Shannon), e o misterioso vizinho Tom (Sam Shepard). Personalidades nitidamente distintas, mas que possuem uma interessante participação nesta tentativa do jovem em desvendar os mistérios envolvendo o amor. A grande sacada do roteiro, no entanto, fica pela forma como as mulheres são utilizadas, principalmente, a personagem de Reese Whiterspoon. Sem querer revelar muito, Nichols acerta ao quebrar alguns paradigmas, ao não se apegar a ilusões sentimentais, apostando em tipos de grande força, sejam eles femininos ou masculinos. 



Conduzindo muito bem todo o longa, Nichols aposta no desenvolvimento gradativo da tensão. Enquanto o relacionamento quase fraternal de Mud com os jovens vai sendo apresentado, a trama não deixa de lado o passado misterioso desse homem, o que acaba desencadeando um surpreendente e bem construído desfecho. Com um luminoso trabalho de fotografia de Adam Stone, que explora muito bem as belas paisagens sulistas, e uma trilha sonora repleta de personalidade, assinada por David Wingo, Nichols parece ter todas as ferramentas para conduzir o seu competente elenco. A começar pelo ótimo desempenho de Matthew McConaughey, que vive o melhor momento em sua carreira. Após as elogiadas atuações em Obsessão e Dallas Buyers Club, McConaughey tem talvez um dos desempenhos mais sólidos de sua filmografia. Apresentando um personagem forte e carismático, o experiente ator mostra uma ótima química com os jovens e brilha em cena. Além de McConaughey, o longa traz ainda o talento emergente do jovem Tye Sheridan, que tem tudo para ser um dos grandes nomes desta geração. Após estrear em Árvore da Vida, Sheridan vem recebendo elogios pelos seus desempenhos em Joe, filme que teve boa recepção no Festival do Rio 2013, e por Amor Bandido. Conseguindo aliar inocência à um personagem forte e explosivo, Sheridan convence em uma marcante atuação. É interessante como ele consegue amadurecer ao longo do filme, com um papel extremamente bem construído. Além dos dois, vale destacar o também eficiente desempenho do jovem Jacob Lofland, que remete diretamente aos clássicos infanto-juvenis da década de 1980, a bela e loira Resse Whiterspoon, Michael Shanon (grande parceiro de Nichols), e os experientes Sam Shepard e Ray McKinnon.


Um dos filmes mais surpreendentes de 2013, Amor Bandido possui os requisitos básicos para colocar o nome do jovem Jeff Nichols entre os mais promissores diretores da atualidade. Apesar de lidar com a inocência e uma certa pureza sentimental, o longa é de uma maturidade impar ao narrar um complexo caso de amor. Sem se apegar a estereótipos, Nichols explora de forma original todas as ilusões, dúvidas e as certezas que acabam cercando, de maneira geral, os relacionamentos. Sejam eles amorosos ou genuinamente fraternais.


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