terça-feira, 13 de março de 2018

Aniquilação

Sci-fi, Horror e Drama se misturam numa experiência reflexiva, audaciosa e original 

No que diz respeito as suas produções originais, a Netflix tem errado bem mais do que acertado quando o assunto é o cinema. Nos últimos anos, para cada Okja (2017) lançado existem três\quatro Zerando a Vida (2016), Vende-se Esta Casa (2017), Death Note (2017)… Embora siga se esforçando para tirar do papel produções com temáticas diferenciadas, vide os recentes Bright (2017), Onde Está Segunda? (2017) e The Discovery (2016), a poderosa empresa de streaming segue pecando no desenvolvimento das suas histórias, investindo majoritariamente em premissas instigantes que não se sustentam ao longo das suas obras. Quando acerta, porém, a Netflix tem conseguido entregar\adquirir produções originais de ótimo nível. Esse é o caso de Aniquilação, uma experiência cinematográfica reflexiva, audaciosa e indiscutivelmente original. No seu segundo trabalho na função de diretor, Alex Garland se comprova como uma das mais instigantes novas vozes de Hollywood ao questionar o nosso comportamento autodestrutivo numa poderosa alegoria ambiental. Numa obra com múltiplas camadas, o homem por trás do extraordinário Ex_Machina (2015) esbanja domínio narrativo ao construir um denso estudo de personagem, transitando habilmente entre o Sci-Fi, o Horror e o Drama enquanto reflete sobre a nossa existência numa obra inquietante, tensa e cinematograficamente estilosa. 


Um roteirista de mão cheia, vide os seus trabalhos em títulos do quilate de Extermínio (2002), Sunshine: Alerta Solar (2007) e Não me Abandone Jamais (2010), Alex Garland mostra a novamente a sua preocupação com o desenvolvimento narrativo ao valorizar – como poucos dentro do gênero na atualidade – o ‘background’ dramático. Assim como em Ex_Machina, o diretor é astuto ao, num primeiro momento, se concentrar na construção da sua protagonista, incorporando à trama dilemas estritamente humanos. Embora isso não seja uma novidade dentro do segmento, longe disso, Garland foge do lugar comum ao dialogar com questões mais mundanas, realçando as falhas dos seus personagens enquanto constrói o vínculo entre eles. Sim, por mais que as suas histórias transitem por cenários complexos, o seu foco está no aspecto micro, nas relações humanas e na maneira com que lidamos com a realidade que nos cerca. Se em Ex_Machina os holofotes estavam sobre os cientistas vividos por Oscar Isaac e Domhnall Gleeson, em Aniquilação o longa segue os passos da Drª Lena (Natalie Portman), uma bióloga amargurada após o sumiço do seu marido, o militar Kane (Oscar Isaac). Convivendo com os seus próprios erros, ela é pega de surpresa ao receber a inesperada visita do seu esposo, após quase um ano sem dar notícias. Em busca de respostas, Lena percebe que algo está errado quando ele sofre um repentino ataque epilético. No caminho do hospital, ela cruza o caminho da Drª Ventress (Jennifer Jason Leigh), uma cientista de passado nebuloso que era responsável pelo estudo de um misterioso evento cósmico. Em quarentena, Lena descobre que Kane esteve envolvido numa missão de reconhecimento. À procura de respostas, ela resolve se oferecer para participar de uma nova incursão dentro da zona afetada pelos luminosos raios, sem saber que lá enfrentaria uma força misteriosa capaz de colocar em cheque a sua racionalidade e as suas compreensões científicas. 


Por mais que o primeiro ato custe a engrenar, Alex Garland “sacrifica” o ritmo dos vinte primeiros minutos de filme em prol da construção da sua marcante protagonista. Dividido em capítulos, o roteiro assinado pelo próprio realizador, inspirado na obra de Jeff Vandermeer, envolve ao fazer um primoroso uso da estrutura não linear, se debruçando sobre as falhas, as convicções e o passado de Lena com pontualidade e sutileza. Na sua camada mais íntima, na verdade, Aniquilação discorre sobre os relacionamentos humanos, transitando com fluidez por temas como a infidelidade, o distanciamento matrimonial e a falta de comunicação. Impulsionado pela ótima química entre Natalie Portman e Oscar Isaac, Garland esbanja poder de síntese ao construir o vínculo entre os personagens, um arco denso que permeia toda a história com naturalidade. A autodestruição, aqui, é sentimental, uma interpretação inventiva (e um tanto quanto pessimista) que parece impressa nas feições dos “quebrados” personagens principais. No momento em que o longa invade o terreno do Sci-Fi, no entanto, o realizador joga o drama para segundo plano e passa a se concentrar no suspense psicológico. Mesmo numa obra com grande apelo visual, Garland exalta a força do seu texto ao ampliar o escopo da história, refletindo sobre a nossa autodestrutividade em diversos níveis. Com um enorme domínio narrativo, o realizador é cuidadoso ao traduzir os mistérios em torno da região afetada pelo evento, se aprofundando no viés científico ao propor uma inteligente crítica ambiental. Em sua camada mais questionadora, Aniquilação é audacioso ao discutir a nossa péssima relação com a natureza, transitando por um terreno original ao usar a sua própria lógica em prol desta crítica. É interessante ver como o roteiro – nas entrelinhas – se posiciona contra as experiências microbiológicas, a manipulação celular e os perigos em torno da influência do homem sobre as leis naturais. Embora não fique claro, as excêntricas\bizarras\exuberantes metamorfoses projetadas por Garland sugerem (pelo menos ao meu ver) um ataque a temas como a clonagem, a industrialização dos alimentos e a explosão dos transgênicos, uma abordagem singular que ganha forma no momento em que percebemos que duas importantes personagens têm no seu passado traumas familiares envolvendo doenças autoimunes. A autodestruição, aqui, já passa a ser física e se relacionar com os nossos hábitos e vícios. 


É na transição para o imersivo último ato, porém, que Alex Garland eleva o viés reflexivo da sua obra a enésima potência. Sem a intenção de dar respostas fáceis, o realizador finca os dois pés no Sci-Fi ao investir pesado na nossa relação com o desconhecido, revelando o impacto da sua mensagem ao reforçar o viés ambientalista defendido pela película. E isso sem apelar para o didatismo, já que a solução encontrada por ele ganha forma de maneira silenciosa e naturalmente provocante. Um ‘plot’ intrigante e imagético que além de se encaixar perfeitamente dentro da trama, oferece ao diretor os ingredientes visuais necessários para a construção de um clímax inteligente, criativo e absolutamente sensorial. Um daqueles desfechos que permanecem com o subir dos créditos, graças à sensibilidade de Garland em exaltar o subtexto, em acreditar no poder de alguns simples gestos. No que diz respeito ao aspecto estético, aliás, Aniquilação só atesta a assinatura deste promissor realizador. Assim como em Ex_Machina, ele faz um inspirado uso da iluminação, explorando tanto a luz natural, quanto a artificial na composição das suas intensas sequências. Nas cenas externas, a maioria delas num bucólico e colorido cenário florestal, Garland é inventivo ao utilizar o contraluz e o efeito da refração da luz num prisma na construção deste mundo influenciado por uma enigmática força, criando “mini arco-íris” que ajudam moldar este ambiente ao mesmo tempo hostil e fascinante. Um predicado favorecido pela texturizada fotografia de Rob Hardy (Ex_Machina), magnífica ao capturar a misturada paisagística idealizada por Garland. Já nas nervosas sequências internas, o diretor faz um estiloso uso da iluminação incidental, usando a escuridão a seu favor principalmente nos momentos mais pavorosos. Por diversas vezes, inclusive, Garland surpreende ao transitar habilmente do suspense para o horror, flertando com a violência gráfica em takes naturalmente arrepiantes. Como não citar, por exemplo, o feroz ataque do urso, uma cena brilhantemente concebida que ganha um peso maior devido a uma solução bizarra e apavorante. Ponto para o desconfortável desenho de som. 


Nos momentos em que precisa se distanciar da sua protagonista, porém, Alex Garland tropeça ao não conseguir tratar os conflitos das demais personagens com a mesma importância. Embora contribuam ativamente para o avanço da película, tipos como a dúbia Drª Ventress, a comunicativa médica Anya (Gina Rodriguez), a sensível cientista Cass (Tuva Novtny) e a introspectiva bióloga Radek (Tessa Thompson) não ganham a mesma atenção do roteiro, revelando as arestas de um texto que funciona em 90% da película. O que, de fato, é uma pena, já que Garland é habilidoso ao estabelecer o frágil elo entre elas e a construção do crescente clima de desconfiança em solo desconhecido. Ainda entre os “vilões” do longa, o CGI é um tanto quanto débil para uma produção de US$ 40 milhões. Por mais que algumas cenas sejam bem resolvidas, vide o já citado ataque do urso e o clímax “Lovecraftiano”, Garland não consegue esconder a artificialidade das suas criaturas digitais diante da luz, o que se torna um pecado diante da originalidade impressa em tela. O problema não está na concepção dos animais mutantes, mas na interação deles com os cenários (e que cenários!) reais. Num todo, aliás, a direção de arte faz um expressivo trabalho ao construir este ambiente “reconquistado” pela natureza, um universo deteriorado marcado pela umidade, pela degradação e pelo hostil aspecto selvagem. 


Impulsionado pela magnífica performance de Natalie Portman, soberba ao criar uma protagonista amargurada, fria, castigada pelos seus próprios fantasmas, Aniquilação faz jus aos principais representantes do gênero ao propor uma inquietante crítica envolvendo a nossa predatória relação com o meio ambiente. Bem, pelo menos essa é a impressão desse que vos escreve. Mesmo sem sacrificar o senso de conclusão da película, Alex Garland é inteligente ao evitar ser taxativo quanto ao real sentido da sua história, provocando o espectador ao mirar no próprio ser humano e nas consequências dos nossos atos. No final das contas, porém, em meio as inúmeras interrogações e as espertas metáforas em torno do reflexivo desfecho, a mensagem central me soou bem mais simples do que parecia ser. Em sua mais pura essência, Aniquilação se revela um filme sobre a necessidade de mudanças, seja para se adaptar, seja para sobreviver, seja para conviver.

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