sábado, 21 de outubro de 2017

Bom Comportamento

Laços de sangue

Disposto a se livrar do rótulo de galã 'teen' conquistado na saga Crepúsculo, Robert Pattinson tem trilhado um caminho extremamente autoral em Hollywood nos últimos anos. Longe dos blockbusters, o talentoso ator resolveu experimentar o melhor do cinema autoral, brilhando - desta vez sem a ajuda da luz do sol - em títulos como subestimado thriller pós-apocalíptico The Rover: A Caçada (2014), na esnobada cinebiografia Life: A Vida de James Dean (2015) e no elogiado drama aventureiro Z: A Cidade Perdida (2016). Um salto de qualidade/maturidade que, indiscutivelmente, atinge o seu ápice no seu mais novo trabalho, o denso e realístico Bom Comportamento. Sob a batuta dos respeitados irmãos Safdie, duas das mais relevantes vozes do cinema 'indie' americano, Pattison praticamente some dentro do seu personagem, se tornando o coração de um vigoroso e nada concessivo thriller de perseguição. Uma obra estilosa e tecnicamente impecável que, ao valorizar a incessante atmosfera de tensão, só estreita os laços entre dois irmãos separados pelo sonho da prosperidade numa América vil e desigual. 



Misturando o frenesi de Corra Lola Corra (1998), com a inconsequência estúpida de Jogos Trapaças e Dois Canos Fumegantes (1998) e o naturalismo transgressor do recente Victoria (2015), o roteiro assinado por Ronald Bronstein e pelo próprio Josh Safdie é inicialmente primoroso ao estabelecer a sincera conexão entre os irmãos Connie (Robert Pattinson) e Nick (Benny Safdie). Numa impetuosa proposta narrativa, o longa precisa de menos de quinze minutos para introduzir tanto a personalidade dos dois, quanto os dilemas da dupla, equilibrando agilidade e profundidade ao arquitetar o plot com absoluta originalidade. Geralmente vazios, os créditos iniciais, por exemplo, aqui se transformam num poderoso elemento narrativo, realçando a forte carga sentimental do filme num recorte intenso e contextualizador. Na verdade, guiado por sentimentos como o amor e o desespero, Bom Comportamento é uma daquelas raras películas que se impõem (literalmente) do primeiro ao último minuto de projeção, resgatando a adrenalina dos filmes de perseguição sem "sacrificar" o conteúdo e a dramaticidade do argumento. Com um teor crítico\realista típico do cinema 'indie', o longa acompanha as desventuras de Connie, um rapaz sem grandes perspectivas que, na tentativa de dar um pouco mais de conforto para o seu irmão, o autista Nick, resolve assaltar um banco e conseguir o dinheiro necessário para deixar a cidade grande. Durante a fuga, entretanto, os dois são surpreendidos por uma patrulha policial. Enquanto o mentor consegue escapar, Nick se assusta, sofre um acidente e é preso. Sem dinheiro e o seu tão estimado irmão, Connie terá que correr contra o tempo para reparar o seu erro, lutando para conseguir os dez mil dólares da fiança enquanto se depara com a face mais desigual de uma grande metrópole.


Impulsionado pelo excepcional primeiro ato, Bom Comportamento segue com o pé no acelerador ao desenvolver a desesperada jornada de Connie. Com um roteiro sem "gorduras", Josh e Bennie Safdie são incisivos ao se concentrar no que realmente importa, se esquivando das informações desnecessárias ao explorar o temperamento do assaltante e o impacto da prisão durante uma agitada noite. Sem explicações óbvias, a dupla de realizadores se concentra no momento, no improviso, na crescente sensação de impotência do protagonista, extraindo as suas mais sinceras emoções com intimidade e nervosismo. Fazendo um imersivo uso da granulada fotografia noturna de Sean Price Williams (Rainha do Mundo), os irmãos Safdie mostram fluidez cênica ao colocar a sua câmera bem próxima da ação, realçando a incessante atmosfera de tensão ao investir em claustrofóbicos planos fechados e em expressivos close-ups. O enérgico 'mise en scene' soa muito natural, principalmente pela precisão dos diretores ao capturar a reação dos personagens a cada novo obstáculo imposto. É aqui, aliás, que o longa encontra as brechas necessárias para tecer uma refinada crítica envolvendo a realidade de uma grande metrópole norte-americana. Assim como David Mackenzie fez no recente filme de assalto A Qualquer Custo, os Safdie esbanjam maturidade ao fazer um inteligente uso do subtexto, subvertendo os clichês do "sonho americano" ao expor a desigualdade, a opressão policial e a realidade de uma camada da sociedade que frequentemente é esnobada em Hollywood. Por trás de tipos propositalmente vazios, repare na dependente relação dos coadjuvantes com as suas figuras maternas, os Safdie's apontam a sua mira para os "filhos" de uma América desleixada, evidenciando a face mais vil da "Terra das Oportunidades". Nas entrelinhas, inclusive, o longa é inteligente ao dar voz aos imigrantes, realçando os contrastes sem se esquivar dos enraizados problemas raciais nos EUA.


Em meio aos inúmeros predicados técnicos\narrativos, Robert Pattinson surge como a força motora do longa ao traduzir com energia a complexidade do ardiloso Connie. Completamente imerso no personagem, o ex-galã 'teen' entrega uma performance explosiva, traduzindo o misto de esperança, desespero, obsessão e desilusão do assaltante com extrema naturalidade. Quando necessário, porém, Pattinson é igualmente sutil ao interiorizar o aspecto mais sentimental da trama, o que fica claro na comovente relação com o seu irmão. Embora separados durante a maior parte da película, o vínculo entre os dois é perfeitamente compreensível, muito em função do excelente primeiro ato e do intenso trabalho de Pattinson. Assim como ele, aliás, o também diretor Benny Safdie enche a tela de sentimento ao viver o relutante Nick. Sem nunca soar artificial, o ator é cuidadoso ao absorver a deficiência do seu personagem, um trabalho minucioso capturado em sua máxima potência logo na sequência de abertura. Num todo, aliás, o elenco cumpre os seus respectivos papeis com louvor, vide a mimada namorada vivida por Jennifer Jason Leigh, o verborrágico "parceiro" interpretado por Ben Edelman e a ingênua adolescente vivida pela promissora Taliah Webster. Um trabalho consistente que, na verdade, ajuda a reparar os poucos deslizes do roteiro, a maioria deles envolvendo algumas ligeiras conveniências narrativas. Sem querer revelar muito, embora renda uma curiosa reviravolta, uma solução, em especial, soa um tanto quanto forçada, o tipo de coincidência que enfraquece o tom realístico proposto pela película. Além disso, por mais que o desfecho em si seja memorável e completamente coerente com o teor do arco central, o longa perde parte da sua força dentro do clímax, principalmente quando decide fazer uma ligeira mudança de foco e mostrar as decisões do protagonista sob um (apressado) prisma mais distante.


Uma pequena derrapada que de maneira alguma reduz o impacto de Bom Comportamento, um thriller imponente que desponta como uma das grandes surpresas cinematográficas de 2017. No embalo da afiada montagem e dos refinados riffs de guitarra sintetizados da trilha de Daniel Lopatin (The Bling Ring), os irmãos Benny e Josh Safdie conseguem se aproximar do "cinemão" hollywoodiano sem abdicar da sua veia autoral, equilibrando estilo (o neon definitivamente voltou à moda) e realidade para a construção de uma película tensa, imprevisível e genuinamente humana. 


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