segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Punhos de Aço

Boxe, política e latinidade

Em busca do sucesso de outrora, Robert De Niro tem errado bem mais do que acertado nos últimos anos. Em Punhos de Aço, porém, podemos ver um vislumbre do talento do legendário homem por trás de títulos do porte de Taxi Driver, O Poderoso Chefão - Parte 2 e Touro Indomável. De volta ao universo do boxe (confira a nossa lista com os dez melhores filmes do gênero), o veterano astro ganha um papel de destaque na cinebiografia do respeitado lutador Roberto Duran, um pugilista panamenho que ficou conhecido por derrotar o lendário Sugar Ray Leonard nos anos 80. Longe de ser uma obra perfeita, o longa dirigido e roteirizado pelo venezuelano Jonathan Jakubowicz foge do lugar comum ao pintar um relato mais amplo sobre a trajetória do boxeador. 

Embora pese a mão em alguns momentos, principalmente na transição do segundo para o terceiro ato, o realizador é perspicaz ao expor a miserável situação do Panamá diante da opressiva presença americana no país, criando um interessante pano de fundo ao explorar a raivosa relação do lutador com os EUA. Durante o envolvente primeiro ato, inclusive, Jakubowicz e inteligente ao se debruçar sobre os crescentes conflitos políticos no país, os revelando sob a perspectiva de um jovem e astuto Roberto. Impulsionado pela consistente performance explosiva de Edgar Ramirez, o diretor é igualmente hábil ao estabelecer a ascensão do boxer, realçando a instabilidade do biografado ao reproduzir a sincera relação entre ele e o seu técnico, o respeitado Ray Arcer (De Niro, sereno e expressivo), ao revelar o ardiloso jogo psicológico por trás das duas lutas entre Duran e Leonard, ao expor os altos e baixo envolvendo o universo do esporte e ao escancarar os escusos interesses comerciais em torno do mundo do boxe. O Don King de Reg E. Cathey, indiscutivelmente, está entre as melhores coisas do filme. 



Por mais que as lutas em si não sejam tão plásticas e bem editadas assim, Jakubowicz mostra um competente domínio cênico ao não só reproduzir a atmosfera da época, como também ao capturar o estilo de luta dos dois lutadores, criando um 'mise en scene' que funciona. Num todo, aliás, o diretor preenche o longa com alguns inventivos movimentos de câmera, muitos deles circulares, reforçando a amplitude de cenário e o inegável valor de produção do longa. Na transição para a sua segunda metade, porém, Punhos de Aço se perde em meio aos clichês da vida real. Embora nunca se renda a unidimensionalidade, a derrocada de Duran é traduzida de maneira atabalhoada, costurada com um esquematismo bem típico do gênero. Após ser esquecido durante boa parte do segundo ato, o contexto político volta a ser acionado de maneira repentina, um gatilho "nacionalista" que soa um tanto quanto artificial.


Outro ponto que incomoda, e muito, é o trabalho quanto ao rejuvenescimento\envelhecimento do elenco. Do alto dos seus 39\40 anos, Ramirez até se esforça, mas não convence como um jovem malandro de vinte anos. A sua relação com a bela Ana de Armas, inclusive, é bastante prejudicada por isso, já que enquanto ele "envelhece" naturalmente ao longo da trama, ela permanece com o seu corpo escultural e o seu rosto jovial por quase duas décadas. E isso mesmo após ter cinco filhos. A mágica da cinebiografia. Em suma, longe de ser um filme inovador, Punhos de Aço se revela uma obra com paixão, um drama esportivo decente que acerta ao absorver a latinidade tão exaltada por nomes como o do pugilista Roberto Durán. Além de pintar um relato íntimo e nada condescendente sobre o lutador, Jonathan Jakubowicz não renega as suas raízes  ao exaltar a identidade do protagonista, ao respeitar o idioma e a expansividade caribenha, se esquivando do tom cartunesco ao tentar entender a mente do homem conhecido pelos seus "punhos de pedra" e pelo seu coração mole. 

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...