quinta-feira, 1 de junho de 2017

De Carrie Fisher à Gal Gadot - A Consolidação do Protagonismo Feminino no Universo Blockbuster


Inegavelmente, o lançamento de Mulher-Maravilha (leia a minha crítica aqui) representa um marco dentro do universo blockbuster. Após anos defendendo o tabu que os filmes de super-heróis estrelados por mulheres não seriam rentáveis aos olhos do "grande público", uma afirmação falaciosa sustentada pelo pífio desempenho comercial dos péssimos Mulher-Gato (2004) e Elektra (2005), os executivos de Hollywood finalmente tiveram a coragem de dar uma voz relevante a uma protagonista feminina neste concorrido gênero. E nada mais justo que este "grito de liberdade" fosse dado pela heroína mais popular da cultura pop, a guerreira e indomável Diana Prince. Após alguns insucessos comerciais e uma série de dúvidas quanto a consolidação do seu Universo Cinematográfico, a dobradinha DC\Warner finalmente fez jus ao poder desta icônica personagem e quebrou alguns dos mais enraizados tabus ao transforma-la no símbolo de uma retomada. 



De longe o ponto mais alto do oscilante Batman Vs Superman: A Origem da Justiça (leia a nossa crítica aqui), a Mulher-Maravilha de Gal Gadot roubou os holofotes com enorme naturalidade. Impulsionada pelo misto de imponência, magnetismo e energia da atriz israelense, a super-heroína conquistou o seu espaço sem titubear, culminando num tão aguardado filme solo. Recebido com entusiasmo pela crítica internacional, o longa dirigido pela talentosa Patty Jenkins conseguiu colocar um fim nestas estúpidas incertezas quanto à presença feminina no gênero, potencializando a sua popularidade numa aventura capaz de revigorar o tão questionado Universo Cinematográfico da DC. Antes de Gal Gadot emprestar o seu carisma para a integrante da Liga da Justiça, entretanto, uma série de outras atrizes deram a sua contribuição em prol da igualdade dentro do gênero. Neste artigo, portanto, iremos lembrar a trajetória de outras importantes personagens e das mulheres que ajudaram a solidificar a protagonismo feminino dentro do cinema blockbuster.


E nada melhor do que começar com uma referência quando o assunto é o protagonismo feminino. Numa época em que o clichê da donzela indefesa ainda povoava o imaginário coletivo do gênero, o prodígio George Lucas se antecipou ao fazer da memorável Princesa Leia (foto acima) uma das grandes personagens do icônico Star Wars: Uma Nova Esperança (1977). Indo de encontro aos clichês do segmento, o realizador nos brindou com uma heroína independente e temperamental, uma líder nata capaz de se insurgir contra as nefastas Tropas do Império e o exército de Darth Vader. Interpretada com magnetismo pela saudosa Carrie Fisher, a Princesa Leia cravou o seu lugar dentro da cultura pop com enorme naturalidade, se tornando um dos símbolos mais fortes desta popular franquia e retornando a ela nos bem sucedidos O Império Contra-Ataca (1980), O Retorno de Jedi (1983) e no recente O Despertar da Força (2015).

Ellen Ripley e Sarah Connor
Impulsionado pelo efeito Princesa Leia, ainda no final da década de 1970 fomos apresentados a uma das mais poderosas protagonistas da história da sétima arte. Sob a batuta do "novato" Ridley Scott, Alien: O Oitavo Passageiro (1979) refutou o rótulo do "sexo frágil" ao introduzir a 'badass' Ellen Ripley, uma subtenente que se torna a última linha de defesa entre a Terra e uma impiedosa ameaça espacial. Como se não bastasse o virtuosismo estético do realizador britânico, Sigourney Weaver criou a heroína das heroínas, uma mulher forte, inteligente e corajosa capaz de combater os letais Xenormorfos ao longo desta franquia. Até porque, após trabalhar com Scott em Alien, a atriz voltaria a personagem em mais três filmes, com destaque máximo para a sua performance em Aliens: O Resgate (1986). Nas mãos do aclamado James Cameron, Ripley ganhou uma roupagem ainda mais impactante, invadindo de vez o cinema de ação ao encarar uma legião de aliens enquanto luta para proteger uma pequena sobrevivente. Filmaço. O mesmo Cameron, aliás, tirou do papel outra marcante personagem feminina, a indomável Sarah Connor. Após ganhar uma roupagem mais genérica no clássico O Exterminado do Futuro (1984), a heroína interpretada por Linda Hamilton fez por merecer uma vaga no seleto hall no fantástico O Exterminador do Futuro 2 (1991). Com um visual “trincado”, Sarah surgiu aqui disposta a tudo para proteger o seu filho, o procurado John Connor, roubando a cena num filme estrelado pelo astro Arnold Schwarzenegger. Fato raro.

Milla Jovovich, Alice e a retomada feminina dentro do Cinema de Ação

Nikita, Leeloo e Alice
Mestre na arte de construir grandes personagens femininas, o francês Luc Besson também ajudou a derrubar os tabus sexuais dentro do concorrido cinema de ação. Reconhecido por valorizar a presença feminina nos seus filmes, o realizador criou uma das heroínas mais populares do segmento no clássico Nikita (1991). Com uma performance autoral, a francesa Anne Parillaud criou uma assassina profissional rebelde e perigosa, uma mulher de passado nebuloso determinada a reconstruir a sua vida. Anos mais tarde, Besson voltaria a conceber uma marcante protagonista feminina no divertidíssimo O Quinto Elemento (1997). Mesmo diante da figura do astro Bruce Willis, a cativante Leeloo atraiu os holofotes do primeiro ao último minuto. Responsável por algumas das mais espetaculares sequências de ação do filme, a heroína interpretada pela magnética Milla Jovovich encheu a tela de carisma com a sua aura inocente e a sua incrível habilidade para as artes marciais. A atriz, aliás, voltaria a uma franquia de sucesso em Resident Evil: O Hóspede Maldito (2002). Em meio às críticas dos fãs mais intransigentes, a adaptação dirigida por Paul W.S. Anderson realmente não estava à altura da série de games, mas conseguiu se tornar a primeira franquia de sucesso deste segmento no cinema. Criada especialmente para a hexalogia, a caçadora de zumbis Alice se tornou o símbolo da retomada feminina dentro do gênero, uma prova que as mulheres poderiam capitanear uma saga deste porte.

Trinity, Lara Croft e Elizabeth Swan
Antes de Milla Jovovich brilhar na franquia Resident Evil, no entanto, Carrie-Anne Moss se tornou referência dentro da cultura pop ao emprestar o seu reconhecido talento para o cultuado Matrix (1999). Na pele da agente Trinity, a atriz canadense protagonizou alguns dos momentos mais icônicos do longa original, vide as cenas em ‘bullet-time’, criando uma personagem 'badass' e singular. No rastro de nomes como Moss e Jovovich, Angelina Jolie encontrou o espaço necessário para se consolidar como uma verdadeira estrela do gênero nos anos 2000. Após liderar as duas adaptações da franquia de games Tomb Raider (2001-2003), a atriz atestou que os filmes de ação protagonizados por mulheres poderiam ser rentáveis. Com os US$ 478 milhões conseguidos por Srº e Srª Smith (2005), os US$ 341 milhões de O Procurado (2008) e os US$ 293 milhões de Salt (2010), Jolie alavancou a sua carreira dentro do segmento e se tornou a atriz mais bem paga de Hollywood em 2013. Algo parecido, aliás, aconteceu com a britânica Keira Knightley. Com uma carreira até então pouco expressiva, a atriz se consolidou em Hollywood com o seu temperamento forte na trilogia Piratas do Caribe (2003-2007) e no épico Rei Arthur (2004), interpretando, respectivamente, a impetuosa Elizabeth Swan e a resiliente Guinevere.

Selena, Letty e Viúva Negra
Um ano antes, Kate Beckinsale alcançou o estrelato com o vampiresco Anjos da Noite (2003). Na pele da vampira Selena, a atriz inglesa mostrou habilidade nas empolgantes sequências de ação, transformando este despretensioso titulo em uma lucrativa quadrilogia. Assim como Beckinsale, quem também aproveitou a sua chance dentro do gênero foi Michelle Rodriguez. Uma das atrizes mais "duronas" da atualidade, ela se destacou em Velozes e Furiosos (2001) e Resident Evil: O Hospede Maldito (2002). Embora não tenha conseguido brilhar em um “filme solo”, Rodriguez pode ser considerada uma das grandes certezas do gênero, com papeis de destaque em SWAT (2003), Avatar (2009), Velozes e Furiosos 4 (2009), Resident Evil 5 (2012) e nos lucrativos Velozes e Furiosos 6, 7 e 8 (2012\2015\2017). Antes de Gal Gadot brilhar dentro do universo super-heróico, porém, a popular Scarlett Johansson ganhou status dentro deste segmento majoritariamente masculino em Homem de Ferro 2 (2010). Na pele da agente Natasha Romanoff, a atriz se tornou o principal trunfo desta genérica continuação, atraindo os holofotes com o seu charme inigualável e com a sua habilidade nas cenas mais físicas. Dividindo o espaço com deuses nórdicos, criaturas geneticamente modificadas e humanos com próteses robóticas, a popular Viúva Negra logo se tornou uma genuína Vingadora e hoje é parte integrante do aclamado Universo Cinematográfico da Marvel. Uma das atrizes mais rentáveis de Hollywood nos últimos anos, Scarlett Johansson seguiu brilhando dentro do gênero, nos brindando com longas como o bem sucedido Lucy (2014) e o subestimado Ghost in The Shell (2017).

Os novos rostos femininos do gênero blockbuster

Katniss Everdeen e Gamora
Seguindo os passos das precursoras Carrie Fisher e Sigourney Weaver, uma nova geração de atrizes tem representado com enorme relevância o sexo feminino dentro do universo blockbuster. Uma das grandes sensações de Hollywood, a magnética Jennifer Lawrence se tornou referência junto à garotada na popular franquia ‘Jogos Vorazes’ (2012-2015). Na pele da corajosa Katniss Everdeen, a jovem atriz escreveu o seu nome no gênero ao construir uma heroína consciente, indomável e com um forte senso de sobrevivência. Com status estrelar, Lawrence voltou a brilhar na nova fase de X-Men, dando a jovem Mística um protagonismo totalmente inédito dentro da franquia. Com o faro apurado para as grandes personagens femininas, quem também tem roubado a cena é a excelente Zoe Saldana. Uma dos nomes mais interessantes da sua geração, ela emplacou não só uma, mas três franquias de extremo sucesso. Após interpretar a guerreira Neytiri no estrondoso Avatar (2009), Saldana ganhou um impressionante destaque ao encarar a inteligente Uhura na nova Trilogia Star Trek (2009-2016) e indomável Gamora nos fantásticos Guardiões da Galáxia (2014) e Guardiões da Galáxia Vol. 2 (2017).

Furiosa e Rey
Numa realidade bem mais acessível para a presença feminina neste segmento, o veterano George Miller surpreendeu o público e a crítica ao nos brindar com o audacioso Mad Max: Estrada da Fúria (2015). Numa sacada de mestre, o realizador australiano transformou o seu protagonista, o raivoso Max, numa espécie de coadjuvante de luxo, dando a imponente Imperatriz Furiosa um justificável protagonismo. Com uma forte carga feminina, Miller transformou a protagonista num símbolo de resistência, um divisor de águas numa película de US$ 150 milhões de orçamento. Foi em Star Wars: O Despertar da Força, porém, que surgiu a mais comentada personagem de 2015. Seguindo o DNA feminino da franquia, a cultuada saga espacial ganhou um inegável novo fôlego nas mãos de J.J Abrams e da incrível Rey. Interpretada com energia pela promissora Daisy Ridley, a heroína assumiu as rédeas desta nova etapa da franquia, dividindo os holofotes com figuras do quilate de Harrison Ford (Harrison Ford) e a própria Carrie Fisher (Princesa Leia). Aclamado pelos fãs, o tão aguardado Episódio VII faturou fantásticos US$ 2,06 bilhões ao redor do mundo, premiando o esforço da Disney em resgatar a essência da saga após a contestada trilogia prequel.

As super-heroínas que nós respeitamos
Eis que então, após anos de tentativas frustradas e muitas incertezas, Mulher-Maravilha chega para consolidar a ascensão feminina dentro deste concorrido gênero. Com a missão de dar corpo a esta icônica personagem, a inteligente Gal Gadot não tem fugido da raia quando o assunto são as questões feministas em torno da sua Diana Prince. Em entrevista recente a Entertainment Week, por exemplo, a atriz defendeu que a representante da Liga da Justiça é uma heroína feminista, mas dentro de um contexto mais atual. "A Mulher-Maravilha é uma feminista, é claro. (...) Eu acho que as pessoas têm um equívoco sobre o que é o feminismo. As pessoas pensam em axilas peludas e mulheres que queimam sutiã e odeiam homens. Não é isso. Para mim, o feminismo é tudo sobre igualdade e liberdade e sobre escolher o que nós (mulheres) queremos fazer. Se são salários, então, somos pagos igual aos homens. Não são homens versus mulheres ou mulheres versus homens." afirmou a atriz num discurso de muita personalidade. Ex-modelo e militar do Exército Israelense, Gadot saiu em defesa também da importância da sua personagem e do que ela pode representar. "Eu amo tudo o que a Mulher-Maravilha representa. Ela defende amor e compaixão, aceitação e verdade, e acho que esses valores são tão importantes, especialmente hoje em dia com tudo o que está acontecendo no mundo. Eu acredito que, se todos e cada um de nós tivessem um pouco de valores da Mulher Maravilha, o mundo seria um lugar melhor." declarou a atriz em entrevista ao site Comic Book. Mensagens edificantes à parte, o fato é que Mulher-Maravilha chega para adicionar uma bem vinda representatividade ao universo dos super-heróis e colocar fim a um tabu que demorou tempo demais para ser derrubado. Antes tarde do que nunca.

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