sexta-feira, 29 de abril de 2016

Capitão América: Guerra Civil

Os espólios da guerra

Ousado, extremo e essencialmente humano, Capitão América: Guerra Civil se revela a produção mais madura já apresentada pela Marvel Studios. Impecável ao dar sequência ao contextualizado embate ideológico desenhado desde o primeiro Vingadores (2012), o longa dirigido pelos irmãos Anthony e Joe Russo não foge da raia ao explorar as consequências desta rixa, adotando um tom sóbrio e imparcial ao dar voz (e razão) aos dois lados deste confronto. Mesmo com uma série de personagens em mãos, a dupla de realizadores é cirúrgica ao arquitetar esta rivalidade, expondo com intimismo e absoluta profundidade os motivos por trás do racha entre os Vingadores. Sem nunca perder o senso de coesão, o argumento é primoroso ao introduzir os velhos e os novos super-heróis, permitindo que eles adicionem peso e energia a esta continuação. Em suma, Guerra Civil é um entretenimento completo e corajoso. Um thriller de ação poderoso que, ao ir além da diversão escapista, mostra que num conflito deste porte não existem vitoriosos.



Equivocadamente classificado como uma espécie de "Vingadores 2,5", Guerra Civil consegue explorar o timaço de super-heróis sem reduzir o protagonismo de Steve Rogers (Chris Evans). Ainda que o sempre carismático Tony Stark (Robert Downey Jr.) tenha participação ativa na trama, o roteiro assinado pela dupla Christopher Markus e Stephen McFeely (O Soldado Invernal) é preciso ao desenvolver os dilemas do Capitão e os motivos que o levaram a bater de frente com o seu companheiro de equipe. Inspirado ao dialogar com o passado da franquia, o argumento não só ressalta o discurso ideológico do personagem, como também investiga os seus conflitos mais íntimos, o transformando num estopim natural para esta vigorosa premissa. No longa, após uma incursão desastrada em Wakanda, o Secretário de Estado Thaddeuss Ross (William Hurt) resolve limitar a ação dos heróis. Incomodado com o rastro de destruição deixado pelo supergrupo, o político apresenta o Acordo de Sokovia, um tratado que passaria para a ONU o controle dos Vingadores. Enquanto Tony se mostra favorável a "supervisão" global, Steve reluta a aceitar tal situação após a sua frustrante experiência com a S.H.I.E.L.D. Esta rixa filosófica, no entanto, ganha uma cara mais pessoal quando o foragido Buck Barnes (Sebastian Stan) se torna o principal suspeito de um violento atentado. Disposto a proteger o amigo de infância, Steve entra em rota de colisão com o governo norte-americano, iniciando um embate capaz de abalar a estrutura dos Vingadores.


Investindo numa abordagem extremamente madura, Capitão América: Guerra Civil vislumbra o futuro da franquia sem nunca esquecer do seu passado. Assim como em O Soldado Invernal, Christopher Markus e Stephen McFeely dão uma aula no que diz respeito a conexão com os longas anteriores, criando um cenário complexo, inteligente e bem fundamentado. A partir de um texto ágil e intimista, a dupla de roteiristas acrescenta uma forte carga dramática à trama ao ressaltar o peso das atitudes dos heróis e a consequência dos seus mais altruístas atos. Nas entrelinhas, é interessante ver como os "fantasmas" de Sokovia e Wakanda ganham corpo ao longo da película, se transformando numa espécie de ameaça velada e silenciosa. Um "fantasma" prestes a assombra-los. Melhor ainda, no entanto, é a gradativa construção da rivalidade entre Tony e Steve. Apesar do forte dualismo presente na premissa, o argumento evita escolher lados, contrariando a própria campanha de marketing ao revelar o quão tênue pode ser a linha entre o certo e o errado, entre o herói e o vilão, entre a razão e a emoção. Numa opção corajosa, os irmãos Anthony e Joe Russo são incisivos ao explorar o sentimento de culpa dos protagonistas e a forma com que isso ecoa na postura ideológica de cada um deles. Fazendo um excelente uso das pistas soltas e das envolventes subtramas, os realizadores se esforçam para proteger os segredos em torno desta crescente rixa, ampliando o clima de tensão e imprevisibilidade à medida que os dilemas pessoais passam a guiar as atitudes dos dois heróis. É aqui, aliás, que o argumento assume um viés mais humano, expondo as falhas e o sentimentos reprimidos dos personagens. 


Explorando com rara categoria o vínculo entre os heróis, que preenchem a trama com coesão e completa função narrativa, os irmãos Anthony e Joe Russo são igualmente habilidosos ao introduzir o enigmático Zemo. Graças a convincente performance de Daniel Bruhl, o cerebral antagonista adiciona densidade ao longa, incitando o racha ao revelar um realístico e bem arquitetado plano de ataque aos Vingadores. Inegavelmente, uma das boas surpresas desta continuação. Não se engane, porém, com a aparência aborrecida do argumento. No melhor estilo Marvel Studios, Guerra Civil em nenhum momento abdica do humor afiado e do fator empolgação. Com absoluta perícia e rigor técnico, os Irmãos Russo colocam novamente o espectador no centro da ação, comprovando o seu talento ao entregar uma sucessão de cenas frenéticas, agressivas e brilhantemente coreografadas. Quando o assunto são os takes grandiosos, no entanto, o grau de qualidade do trabalho da dupla atinge níveis poucas vezes experimentados no gênero. Amparado pelos incríveis efeitos digitais, os diretores simplesmente constroem a sequência de ação mais espetacular da franquia. Sem medo de errar, o tão aguardado confronto no aeroporto faz jus a um título deste porte, tirando o máximo dos superpoderes de personagens como o Capitão América, o Homem de Ferro, o Homem-Aranha, a Feiticeira Escarlate e o Homem-Formiga. Este último, inclusive, surpreende ao se revelar o principal alívio cômico do longa, mostrando os motivos que fizeram de Paul Rudd uma das contratações mais certeiras da Marvel Studios.


Por falar neles, o principal trunfo de Guerra Civil fica pela forma como o longa introduz os novos e velhos Vingadores. Com uma impressionante noção de simultaneidade e uma afiada montagem, os irmãos Anthony e Joe Russo permitem que cada um dos demais heróis adicione parte da sua essência à história, os transformando em poderosos elementos narrativos. A começar pelo fantástico novo Homem-Aranha, que em menos de vinte minutos nos leva a euforia ao encher a tela de humor e carisma. Sem tempo a perder, os realizadores precisam de duas ou três cenas para apresenta-lo, se distanciando dos velhos clichês ao realçar o seu senso de justiça, o seu jeitão curioso e a sua aura 'looser\nerd'. O jovem Tom Holland, aliás, absorve com rara inspiração o espírito "moleque" do amigão da vizinhança, se tornando uma peça decisiva dentro da épica sequência do aeroporto. E isso sem falar do seu visual 'old school', marcado pelo uniforme expressivo e extremamente fiel aos quadrinhos. Assim como o teioso, quem também deixa um ótimo cartão de visitas é o intenso Pantera Negra. Um dos pilares da trama, o príncipe de Wakanda acrescenta peso e dramaticidade ao longa, ganhando uma performance vigorosa nas mãos do talentoso Chadwick Boseman e um visual absolutamente caprichado. De longe, um dos trajes mais 'bad-ass' da franquia. 


Tão bem aproveitado quanto o guerreiro africano, o atormentado Buck Barnes amplia o clima de tensão da película ao dar continuidade aos episódios acontecidos em O Soldado Invernal. Nas mãos do competente Sebastian Stan, o ex-soldado da HYDRA ganha uma abordagem pessoal, trazendo mais gravidade ao embate que dá titulo ao longa. Já entre os rostos conhecidos, Homem de Ferro e Capitão América polarizam um duelo ideológico intimista, potencializado pelas contidas atuações de Chris Evans e de Robert Downey Jr. Esse último, aliás, se despe do tipo egocêntrico e falastrão ao absorver o misto de culpa enfrentados pelo seu Homem de Ferro, entregando uma performance mais sutil e e humana. Mesmo com uma série de personagens em mãos, os irmãos Russo são igualmente cuidadosos ao destacar o impacto desta rixa no supergrupo, valorizando a conexão emocional e a cumplicidade entre os heróis ao se aprofundar nos pequenos conflitos em torno deste incomodo confronto. Pra ser sincero, é incrível como todos os super-heróis ganham um merecido destaque ao longo da trama, incrementando o arco central com absoluta naturalidade. Sem querer revelar muito, a abalada Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen), a errática Viúva Negra (Scarlett Johansson) e o ponderado Visão (Paul Bettany) só reforçam a complexidade com que o tema proposto é abordado. 


Cultivando sentimentos até então raros dentro do Universo Vingadores, como a dor, a raiva e a vingança, Capitão América: Guerra Civil marca o amadurecimento de uma franquia que não se cansa de ousar e surpreender. Auxiliados pela invejável química entre os atores, os irmãos Anthony e Joe Russo são corajosos ao escancarar as consequências por trás deste gigantesco embate, revelando o quão nocivo e extremo podem ser os espólios de uma guerra. Recheado de momentos memoráveis, o longa empolga ao construir um história sóbria, com forte carga dramática, sem abrir mão dos aguardados alívios cômicos e das espetaculares sequências de ação. Desta forma, ao aliar tensão, drama e humor com absoluta propriedade, a Marvel Studios comprova que seriedade e diversão podem caminhar lado a lado dentro deste concorrido gênero. 


Obs: As duas cenas pós-créditos só ampliam o senso de conclusão da película, arrematando esta irretocável premissa com absoluta categoria.

Obs 2: Confira o nosso ranking englobando as fases 1 e 2 do Universo Vingadores nos Cinemas. 

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