terça-feira, 24 de novembro de 2015

Mistress America

Vibrante e tecnicamente caprichado, longa discorre sobre o amadurecimento através de um revigorante encontro de gerações

Novamente ao lado da sua "musa" Greta Gerwig, Noah Baumbach volta a dialogar com o público mais jovem no radiante Mistress America. Responsável pelo cultuado Frances Ha (2013), uma estilosa comedia em preto e branco que arrancou elogios por onde passou, o diretor deixa de lado o tom ácido do seu último longa, o oscilante Enquanto Somos Jovens, ao investigar a crise de identidade de duas jovens engolidas pela ferocidade presente no acelerado estilo de vida em uma implacável metrópole. Com uma narrativa ágil e tecnicamente ousada, Baumbach retorna a temas recorrentes em sua cinebiografia ao promover - através de um revigorante encontro de gerações - um relato leve e vibrante sobre a complexa missão que é amadurecer. Uma mistura irreverente e reflexiva que, potencializada pelo magnetismo da dupla de protagonistas, se revela um entretenimento adorável e particularmente divertido.


Acostumado a refletir sobre os dilemas da juventude, Noah Baumbach merece elogios por cultivar o frescor em suas obras mesmo se mantendo fiel basicamente a um tema: o amadurecimento. Em A Lula e a Baleia (2005), o realizador deixou um belo cartão de visitas ao abordar com sobriedade e sutileza o impacto do divórcio na vida de dois jovens abalados pela separação dos pais. Já em Frances Ha, ele esbanjou naturalidade ao reproduzir a cômica jornada de uma dançarina desengonçada obrigada a encontrar um rumo profissional para a sua vida. Por outro lado, no recente Enquanto somos Jovens, Baumbach abraçou um tom quase satírico ao questionar a postura de um casal de meia idade disposto a recuperar a jovialidade perdida diante do medo de envelhecer. Flertando geralmente com novidades estéticas e\ou narrativas, o diretor repete em Mistress America a sua capacidade de analisar as crises afetivas dos seus personagens sem parecer repetitivo ou redundante. Apostando desta vez numa atmosfera mais descontraída e ligeiramente "fora da caixinha", o argumento assinado por Baumbach e Gerwig narra a jornada da precoce Tracy (Lola Kirky), uma caloura determinada a se tornar uma respeitada escritora. Seguindo à risca a sua rotina de estudos, ela não tem a mesma sorte no ramo das amizades, sofrendo com a solidão na imensidão de Nova Iorque. Tudo muda, no entanto, quando ela resolve encontrar a sua futura irmã postiça Brooke (Greta Gerwig), uma trintona alto astral que, apesar da pressão social, levava uma vida descompromissada em meio ao fervor desta grande cidade. Fascinada por essa figura, Tracy enxerga nela a inspiração para desenvolver o seu mais novo conto, iniciando assim uma troca de experiências franca e reveladora.


Alimentando uma verborragia de fazer inveja ao cultuado Woody Allen, Mistress America nos brinda com um espirituoso mise-en-scene ao desenvolver a crise de identidade das duas protagonistas. Através de diálogos espontâneos, Noah Baumbach é inspirado ao introduzir estes dois tipos diferentes, mas essencialmente complementares, criando um vínculo praticamente instantâneo com o espectador. No embalo da antenada trilha sonora pop da dupla Britta Phillips e Dean Wareham (A Lula e a Baleia), o diretor nova-iorquino não perde muito tempo ao mostrar as respectivas realidades de Tracy e Brooke, evidenciando em duas ou três cenas tanto a maçante rotina da determinada jovem universitária, quanto o agitado estilo de vida da indomável "irmã" mais velha. Melhor ainda, aliás, é a maneira ágil e bem humorada com que o argumento desenvolve a inusitada troca de experiências entre as duas personagens, revelando pouco a pouco as incoerências, as dúvidas e as frustrações por trás desta repentina amizade. A partir das tolas atitudes de Tracy e Brooke, Baumbach critica aqui esta incessante busca pela aprovação diante dos clichês da vida adulta, principalmente pela maneira vazia com que elas associam o próprio amadurecimento à aceitação social. Isso porque enquanto a caloura se vê obrigada a entrar para um seleto grupo de escritores para resolver os seus problemas afetivos, a autêntica irmã postiça aposta as suas fichas na construção de um restaurante "fadado ao fracasso" para deixar de ser classificada como uma irresponsável. Um questionamento que cresce na interessante segunda metade da trama, quando o longa apresenta a desesperada Mamie-Claire (Heather Lind), a ex-melhor amiga de Brooke que parece disposta a tudo para manter o casamento com o bem sucedido Dylan (Michael Chernus). 



O maior diferencial de Mistress America, no entanto, reside no invejável ritmo com que Noah Baumbach conta a sua deliciosa história. Com absoluto controle narrativo, o diretor aposta ora em cortes rápidos, ora em takes estudados, flertando em alguns momentos com a linguagem teatral ao criar um fantástico jogo de cena dentro do último ato. Tirando proveito dos simpáticos personagens de apoio, com destaque para o casal de universitários formado pelo competitivo Tony (Matthew Shear, hilário) e pela desconfiada Nicollete (Jasmine Cephas Jones), Baumbach permite que os coadjuvantes participem desta exótica discussão, injetando energia e refinadas doses de humor a envolvente trama. Nada que, no entanto, supere a adorável presença de Greta Gerwig. Reluzente em cena, a atual musa do cinema 'indie' norte-americano esbanja magnetismo ao construir uma personagem de aparência indômita, cheia de ideias e opiniões, mas que gradativamente revela as suas fragilidades. Indo da afetuosa à irritadiça com enorme fluidez, Gerwig abraça como poucos a verborragia de Brooke, dando sentido ao vago discurso idealista da sua personagem. Criando um contraste natural com a sua irmã postiça, Lola Kirke (Flores Raras) coloca o seu nome no mapa ao entregar uma performance igualmente carismática. Num tipo precoce e aparentemente maduro, a jovem atriz demonstra categoria ao dividir o protagonismo da película, tornando crível o misto de carência, obstinação e egoísmo da jovem aspirante à escritora. A química fraternal entre Gerwig e Kirke, aliás, só valoriza a instável relação entre duas personagens perdidas diante das suas próprias expectativas. 



Questionando o senso comum em torno da vida adulta, Mistress America brinca com o jogo de aparências ao tentar comprovar que o sucesso - seja num best-seller, seja num restaurante alternativo, seja num casamento com um ricaço - não necessariamente acompanha o amadurecimento. Através de protagonistas falhos e por isso humanos, Baumbach adota desta vez um tom irônico ao analisar alguns dos mais recorrentes dilemas da juventude, deixando uma mensagem final de aceitação reconfortante e absolutamente divertida. Ainda que soe caricatural em alguns momentos, esta despretensiosa comédia comportamental supera as expectativas ao transformar Brooke numa espécie de heroína do cinema 'indie'.

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