sexta-feira, 3 de abril de 2015

Velozes e Furiosos 7

A família em primeiro lugar

A franquia 'Velozes e Furiosos' chega ao seu sétimo capítulo mostrando que numa indústria de poucas ideias, a repaginação pode ser a alma do negócio. Deixando de lado o submundo das corridas de ruas e carros tunados, que aqui reaparecem de maneira nostálgica logo na primeira cena, a saga estrelada por Vin Diesel e Paul Walker foi pouco a pouco se aproximando do escapista cinema de ação, com suas cenas espetaculares e completamente inverossímeis. Este processo de reformulação, no entanto, atinge verdadeiramente o seu ápice em Velozes e Furiosos 7, uma continuação que empolga ao oferecer toda a diversão que o espectador espera ter em um (ótimo) filme do gênero. Dirigido pelo talentoso James Wan, que abriu mão dos seus suspenses de baixo orçamento para se dedicar a uma grande produção, o longa vai bem além da comovente despedida ao saudoso Walker, encontrando o equilíbrio perfeito ao mesclar as absurdas sequências de ação com as irresistíveis doses de humor. 


Trazendo o competente Jason Statham como o vilão da vez, num daqueles antagonistas que todo o diretor gostaria de ter em mãos, o argumento assinado por Chris Morgan segue à risca o lema adotado pelo mal encarado Dominic Toretto: "eu não tenho amigos, eu tenho família". Colocando sempre os seus fieis parceiros em primeiro lugar, Dom (Diesel) e Bryan (Walker) seguiram por caminhos opostos após os episódios ocorridos em Londres. Enquanto Dom resolveu se dedicar aos cuidados de sua amada Letty (Michelle Rodriguez), se esforçando para que ela pudesse recuperar a memória, Bryan passou a se dedicar a uma vida pacata, cuidando de sua esposa Mia (Jordana Brewster) e do jovem filho. Esta rotina tranquila, porém, logo é abreviada quando o temido espião britânico Deckard Shaw (Statham), irmão de Owen Shawn (Luke Evans), resolve se vingar das sequelas impostas por Dom e sua turma durante a estadia em solo inglês. Cientes do perigo que está por vir, Dom, Bryan, Letty, Roman (Tyresse Gibson) e Tej (Ludacris) resolvem partir para o ataque. Contando com o apoio de um misterioso homem forte da CIA (Kurt Russel), o grupo inicia assim uma volta ao mundo para encontrar um dispositivo que os colocará no rastro do letal Deckard.


Passeando por uma série de cenários distintos, a fotografia de Marc Spicer e Stephen F. Windon é brilhante ao usar as cidades de Dubai e Los Angeles como um pano de fundo para as acrobáticas sequências de ação, o roteiro segue um caminho interessante ao não se concentrar no típico duelo entre o mocinho e o vilão. Abrindo espaço para as bem sucedidas subtramas, que só contribuem para impecável ritmo do longa, o argumento ganha uma nítida encorpada ao apresentar novos personagens, como o mercenário Jakande (Djimon Hounsou), outro dos interessados no dispositivo, e a bela hacker Ramsey (Nathalie Emmanuel), uma jovem prodígio que desenvolveu este aparato tecnológico. Em meio a tantos elementos promissores, que caminham organicamente lado a lado até o vigoroso clímax, a trama se apoia com grande habilidade no magnetismo de Dominic Toreto e do seu grupo, encontrando assim os ingredientes necessários tanto para os certeiros alívios cômicos, como também para o exagero fantástico das cenas mais explosivas. Com destaque para as divertidas frases de efeito, que funcionam quando ditas pelos carismáticos Vin Diesel e Dwayne Johnson, e também para a emblemática atuação de Tyresse Gibson (Transformers), que rouba a cena com o afiado tempo de comédia do seu Roman.


Com uma história que funciona dentro do que se propõe, James Wan estreia na saga mostrando que a sua perícia técnica não se resume aos filmes de suspense. Responsável pelo início das franquias 'Jogos Mortais' e 'Sobrenatural', o jovem malaio em nenhum momento decepciona nesta incursão ao mundo mágico dos blockbusters. Flertando com as fórmulas oitentistas do cinema de ação, a pancadaria come solta do início ao fim, Wan se apoia em recursos práticos ao conceber boa parte das espetacularmente coreografadas sequências de luta. Através de soluções sempre particulares, em alguns momentos a câmera parece cair e se movimentar junto dos personagens, o diretor demonstra inspiração ao equilibrar os embates recheados de adrenalina com as aceleradas e originais perseguições. Procurando trazer sempre o espectador para dentro dos envenenados carros, ao mesmo tempo em que se conecta perfeitamente com a nova realidade desta franquia, Wan faz questão de se manter fiel a essência automobilística de Velozes e Furiosos. Para isso, contando com efeitos digitais absolutamente impecáveis, que dão até alguma validade ao desnecessário uso do 3-D, o realizador é extremamente criativo ao colocar os carrões no centro da ação, desafiando as leis da física das formas mais absurdas possíveis. E sem esquecer, é claro, das belas modelos de biquíni. Pra ser bem sincero, as vertiginosas cenas envolvendo Dom e um arranha céu, e Brian fugindo de um ônibus, por si só, já valeriam o ingresso.


A maior sacada desta continuação, no entanto, fica pelo sentimento de nostalgia que a trama consegue resgatar no espectador. Por mais que Wan tenha em mãos um timaço de novos atores, nomes como os de Kurt Russel (Fuga de Los Angeles), Ronda Rousey (Os Mercenários 3) e Tony Jaa (Ong Bak) só apimentam as sequências de ação, o longa não se faz de rogado ao explorar com competência tanto os flashbacks, como também uma série de interessantes referências. Aparando as arestas deixadas pelo terceiro filme, num daqueles hiatos que quase pôs fim à franquia, o realizador passeia com habilidade pelas seis últimas produções, se apoiando com destreza no carisma adquirido pelo elenco principal. Contando mais uma vez com o luxuoso reforço de Dwayne Johnson, utilizado de maneira mais pontual neste sétimo longa, Vin Diesel (XXX), Paul Walker (Linha do Tempo), Ludacris (Ritmo de um Sonho), Michelle Rodriguez (Avatar) e Jordana Brewster (Prova Final) cumprem muito bem as suas missões, se entregando de corpo e alma a esta esperta sequência. Méritos que, necessariamente, precisam ser divididos com o malandro do James Wan. Ao passar de forma sútil pelas situações mais dramáticas, o diretor não só se esquiva do tom piegas, mas também evita que os atores caminhem muito tempo fora de suas respectivas zonas de conforto. Uma alternativa segura, que só amplia a comoção em torno da surpreendente reverência final ao saudoso Paul Walker.


Na verdade, deixei propositalmente o melhor para o fim. Se Velozes e Furiosos 7 funciona como entretenimento, oferecendo aos fãs frenéticas perseguições, cenas de ação arrasadoras, afiadas doses de humor e um eficiente argumento, o tocante desfecho dado ao personagem Brian O'Conner só eleva o resultado desta continuação. Fugindo completamente das soluções mais óbvias, o que seria perfeitamente compreensível em função dos gastos e das dificuldades com a agenda, James Wan, os produtores e principalmente o elenco se esforçaram ao máximo para dar um desfecho digno e extremamente sensível ao personagem. Aproveitando as imagens de arquivo, o uso dos dois irmãos como dublês e o espetacular trabalho da Weta Digital, empresa de efeitos visuais criada por Peter Jackson (O Senhor dos Anéis), o longa não só mascara com sucesso a trágica ausência do ator, como também promove uma homenagem final honesta e de rara felicidade. Sem querer revelar muito, a emoção nitidamente toma conta da cena, mostrando que o senso familiar tão exaltado por Dominic Toretto realmente ultrapassou as barreiras da ficção.

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