terça-feira, 24 de março de 2015

Selma - Uma Luta pela Igualdade

Um relato ora contundente, ora politico, sobre os bastidores de um dos episódios mais importantes na luta pela igualdade racial nos EUA

Pivô de uma das principais polêmicas do Oscar 2015, quando foi completamente esnobado nas principais categorias individuais, Selma é um daqueles relatos preciosos sobre uma decisiva batalha na luta pela igualdade racial em solo norte-americano. Indicado ao Oscar nas categorias Melhor Filme e Melhor Canção Original, com a vencedora 'Glory', o longa dirigido por Ava DuVernay é contundente ao mostrar a marcha liderada por Martin Luther King Jr. da cidade de Selma a Montgomery. Se esforçando para destacar todos os detalhes em torno deste episódio marcante, a realizadora britânica aposta numa estética "nua e crua" ao evidenciar a violência e o preconceito racial imposto pelo Sul dos EUA. Por mais que o argumento peque em alguns momentos, principalmente por não encontrar o equilíbrio ideal entre as questões políticas e as mais humanas, DuVernay é habilidosa ao pintar um retrato intimista sobre um reticente Dr. King.



Empurrado pela soberba atuação do britânico David Oyelowo (O Mordomo da Casa Branca), que impressiona ao não só reproduzir os poderosos e engajados discursos do seu personagem, mas também ao construir esta versão relutante e nitidamente fragilizada, a diretora Ava DuVernay foge do lugar comum ao não se contentar em retratar a violência por trás da marcha pelo direito ao voto para os negros do Alabama. Ainda que a realizadora faça questão de chocar o espectador através das fortes imagens, evidenciadas pelo seu apuro técnico, o argumento assinado por Paul Webb vai bem além do básico ao se concentrar em situações importantes, acompanhando de perto os bastidores deste emblemático episódio. Se guiando tanto pela popularidade dos fatos, como também pelos documentos oficias do FBI, que ganham a tela mostrando o quão invasivo já era o governo norte-americano, o roteiro abre um bem-vindo espaço para algumas situações importantes, destacando as nuances políticas por trás deste movimento, os embates ideológicos entre os próprios negros, e o cansaço do pastor diante de uma longa e pesada jornada pela igualdade racial.


Se no papel esta opção trouxe um peso maior à trama, principalmente por dar voz a momentos e movimentos desconhecidos do grande público, a execução acaba evidenciando o principal problema de Selma: o oscilante roteiro. Disposto a adotar um tom politizado e igualitário, o que me parece extremamente coerente com a proposta do filme, o argumento peca ao tentar aparar todas as arestas históricas envolvendo a marcha. Seguindo um caminho excessivamente minucioso ao ressaltar as pressões por trás dos personagens, DuVernay não consegue contornar os nítidos problemas de ritmo do longa, que não consegue ser orgânico ao equilibrar as questões humanas com as políticas. Ainda que esta opção funcione por diversas vezes, como na respeitosa interação entre King e o presidente Lyndon Johnson (Tom Wilkinson) ou na conturbada relação do pastor com a esposa (Carmen Ejogo), o fato é que o excesso de discussões menores reduz não só o dilacerante eco das cenas mais brutais, como também tiram o foco da própria marcha em si. Somado a isso, a trama parece muitas vezes esquemática ao introduzir alguns dos personagens secundários. Na verdade, enquanto nomes como os de Jeremy Strong (O Juiz) ganham um repentino espaço, criam um vínculo com o espectador, e logo depois se tornam pivôs de fatos importantes, outros vão e voltam sem grande explicação. Ainda que o esforço seja nítido, nomes como os de Giovani Ribisi (O Resgate do Soldado Ryan), Alessandro Nivola (Gol!) e Cuba Gooding Jr. (Homens de Honra) praticamente brotam em cena e acrescentam bem pouco ao resultado final do longa.


Pequenas falhas que, no entanto, são compensadas pela habilidade de Ava DuVernay em contar esta história de segregação e luta. Fugindo completamente do tom melodramático, a começar pela abrupta e devastadora sequência inicial, a diretora britânica contorna os problemas do roteiro demonstrando, ao mesmo tempo, pulsos firmes para relatar a covardia imposta aos negros e sensibilidade para construir os momentos mais humanos. Apostando nos enquadramentos fechados e nas expressivas cenas em câmera lenta, DuVernay não poupa o espectador da brutalidade que cercou este episódio, gerando uma revolta completamente natural. Toda a cena da ponte, cujo incidente foi classificado pelos jornais da época como o "Domingo Sangrento", é rodado com uma frieza contundente. Já nas sequências mais amenas, a realizadora mostra categoria ao desenvolver cenas genuinamente comoventes, deixando os enfáticos diálogos ganharem vigor nas vozes dos protagonistas. Contando com a força da performance de David Oyelowo, que carrega em sua expressão toda a responsabilidade e a repressão sofrida por este icônico líder, DuVernay é igualmente arrebatadora no takes mais sutis, tornando momentos aparentemente despretensiosos em sequências emblemáticas. Numa delas, no ponto mais alto do longa, a emoção é latente no encontro de Luther King com um avô prestes a enterrar o seu neto.


Contando ainda com a pálida fotografia assinada por Bradford Young (O Ano mais Violento), que compõe com extrema plenitude este cenário devastador, e com as intensas atuações de Carmen Ejogo, Tom Wilkinson, Wendell Pierce e Tim Roth, que se torna um natural antagonista ao viver o polêmico Governador George Wallace, Selma é mais um daqueles relatos necessários sobre os nefastos efeitos do preconceito racial. Utilizando as chocantes imagens como uma espécie de aliado narrativo, Ava DuVernay se esforça para promover uma poderosa e - ainda hoje - necessária reflexão a partir das memórias de um passado não muito distante.

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