quarta-feira, 20 de agosto de 2014

The Rover - A Caçada

Uma contundente critica a banalização da violência

Impulsionado pelo elogiado drama policial Reino Animal, o diretor australiano David Michôd nos incomoda mais uma vez com o contundente The Rover - A Caçada. Apresentando um road-movie através das paisagens desérticas da Austrália, o realizador impressiona ao conduzir uma tensa e brutal critica envolvendo a atual banalização da violência. Contando com a irretocável atuação de Guy Pearce, que teve o seu personagem pensado e escrito especialmente para que ele fosse o protagonista, esse drama com toques pós-apocalípticos confirma também o que muitos já vinham cogitando: Robert Pattinson é muito mais do que um mero galã de filmes adolescentes.                                                                    

Apostando em uma narrativa extremamente reflexiva, muito mais voltada ao drama e ao suspense do que a ação, o argumento assinado pelo ator Joel Edgerton (Guerreiro), ao lado do próprio Michôd, surpreende pela qualidade com que discute a sensação de impunidade e ausência de limites inerentes aos dias de hoje. Ainda que o desenrolar gradativo possa incomodar àqueles que esperam um novo Mad Max, as intensas atuações e os emblemáticos diálogos compensam com louvor as pequenas oscilações no ritmo do longa. Apesar da comparação com o clássico de 1979 ser inevitável, afinal de contas além da temática semelhante, os dois longas são australianos, os trabalhos de George Miller e David Michôd são completamente distintos. Enquanto o cult estrelado por Mel Gibson constrói uma jornada de vingança estilizada e ultraviolenta, flertando diretamente com o cinema de ação, The Rover opta por uma crítica bem mais realista e contextualizada. Um faroeste moderno repleto de questões morais e perspicazes dilemas.


Se passando "dez anos após o colapso", num futuro não muito distante onde a ineficiência do Estado e a crise econômica geraram o caos e violência, somos apresentados ao misterioso Eric (Pearce). Um homem de passado nebuloso que não demonstra qualquer traço de humanidade em seu olhar. Em meio ao cruel cenário do interior australiano, Eric acaba perdendo o que lhe resta de sobriedade quando seu carro é roubado por assaltantes em fuga. Entre eles estava Rey (Pattinson), um jovem com nítidos distúrbios mentais que, após ser ferido durante o roubo, é deixado para trás por seu irmão Henry (Scoot McNairy). Disposto a fazer qualquer coisa para recuperar o seu carro, os caminhos de Eric e Rey se cruzam quando ele descobre que o irmão do jovem era um dos assaltantes. O homem então sequestra o garoto, iniciando assim uma impiedosa jornada na busca por seu veículo.


Pondo um inocente e abobalhado jovem, sem qualquer condição de sobreviver a essa dura realidade, ao lado de um homem frio e completamente áspero, que construiu uma crosta para suportar o caos e a consequência de seus atos, Michôd constrói um impactante e comedido relato envolvendo as sequelas de uma sociedade hostil. Apesar da avassaladora atuação do talentoso Guy Pearce, indo da inexpressividade sombria a um tocante rompante da humanidade de forma primorosa, chama a atenção a forma gradativa como o personagem Rey é desenvolvido. Em função da sua condição mental, o jovem é um símbolo de inocência em meio ao tenebroso cenário. Através da expressiva atuação de Robert Pattinson, num desempenho que mistura o frágil e o insano, o diretor australiano conduz de forma precisa a relação entre eles e os efeitos da influência de Eric sobre Rey. Com destaque para a forma como o jovem, pouco a pouco, tenta interiorizar o modo de agir e pensar de Eric. Um homem que, em meio ao caos, não tem mais nada a perder. 

Num determinado momento, Rey revela ao seu sequestrador que queria esquecer uma determinada morte. Rapidamente, Eric enfatiza que as mortes não eram para ser esquecidas e que ele precisava conviver com o peso de suas atitudes. Esse diálogo, diga-se de passagem, ressalta muito bem a grande diferença de The Rover para a maioria dos filmes do gênero. Enquanto alguns realizadores glamourizam a violência, David Michôd opta por explora-la de forma extremamente pesada e impactante. Assim como em Reino Animal, o diretor australiano apresenta a brutalidade de forma nua e crua, se apoiando muito bem na própria trilha, ou na ausência dela, e nos efeitos sonoros. Na verdade, as cenas são filmadas de forma tão repentina que chegam a proporcionar alguns sustos. No quesito técnico, aliás, o longa representa um avanço na carreira do diretor australiano. Além da iluminada fotografia de Natasha Braier, que contrapõe com o cenário caótico, e a eclética trilha sonora, que vai do pop norte-americano à música asiática, os interessantes enquadramentos e as sufocantes cenas de ação só contribuem para o surpreendente clímax\desfecho.


Usando a violência para criticar a crescente brutalidade recorrente no panorama atual, The Rover - A Caçada deixa qualquer tipo de otimismo de lado ao questionar o rumo da nossa sociedade. Ainda que esse cenário caótico seja muito bem concebido, David Michôd se concentra a complexidade da natureza humana e na influencia da atitude dos envolvidos na construção desta tensa realidade. Uma alternativa que, aliás, ganha um peso maior graças a já comprovada habilidade do diretor em tirar o máximo de seu elenco. Após o elogiado Reino Animal, e este impactante trabalho, Michôd já é merecedor de uma atenção maior por parte dos fãs do gênero.


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