sábado, 8 de fevereiro de 2014

Trapaça

Tom caricatural pode incomodar, mas o poderoso elenco e a competência de David O. Russel trazem ao longa uma energia irresistível

Indicado ao Oscar em dez categorias, incluindo Melhor Filme, Direção, Ator, Ator Coadjuvante e Atriz Coadjuvante, Trapaça é um daqueles pouco ortodoxos trabalhos que acabam funcionando. Apostando numa visão exótica da década de 1970, com direito a uma farta distribuição de perucas, o longa dirigido por David O. Russel explora com primor o poderoso elenco ao narrar a historia de um casal de vigaristas. Reunindo o time de atores dos dois melhores filmes de sua carreira, O Vencedor e O Lado Bom da Vida, Russel consegue criar a tensão necessária para dar vida a essa comédia de humor-negro movida pela picaretagem, pelo poder e pela ganância. Tudo isso graças ao enorme talento de seus protagonistas, com destaque para um intenso Christian Bale, para a sexy Amy Adams e, principalmente, para a cada vez mais poderosa Jennifer Lawrence. 

Se inspirando em uma história real, baseada na operação do FBI denominada Abscam, o longa narra a trajetória do vigarista Irving Rosenfeld (Christian Bale). Um pequeno empresário, que, após uma vida de malandragens, resolve viver de negócios ilegais. Além de vender pinturas falsificadas, Irving aplica também golpes financeiros em acionistas desesperados. Com os "negócios" indo muito bem, ele se envolve com a bela Sydney Prosser (Amy Adams), uma mulher forte, de passado complicado, que se torna uma grande parceira em suas falcatruas. Apaixonados, os dois ampliam a sua rede golpes, chamando a atenção do FBI. Numa dessas investidas, o agente Richie DiMaso (Bradley Cooper) acaba conseguindo desmascarar a dupla, encontrando provas contra Sidney. Com a sua amada presa, Irving se vê obrigado a aceitar uma oferta de Richie. Em troca da liberdade dela, ele e Sidney teriam que o ajudar a entregar outros quatro vigaristas. Desta relação nasce então um improvável triângulo amoroso, principalmente após Sydney descobrir que Irving é casado com a instável Rosalyn (Jennifer Lawence). O que era pra ser apenas uma prisão de pequenos vigaristas, no entanto, ganha contornos mais abrangentes quando Richie descobre um escândalo envolvendo congressistas, a máfia e o popular político Carmine Polito (Jeremy Renner).


Explorando essa curiosa história real, o roteiro assinado por Eric Singer e pelo próprio David O. Russel apresenta uma linha narrativa simples, que demora a cativar o espectador. Após um início repleto de amenidades, incluindo a superficial aproximação entre Irving e Sidney, a trama cresce de forma gradativa e instigante. Desenvolvendo muito bem os seus personagens, até mesmo os menos expressivos, o roteiro ganha ritmo com a entrada do agente DiMaso na trama. É nesse ponto que Trapaça passa a ter uma pegada mais densa, com bem construídas reviravoltas. Se apoiando num intrigante jogo de verdades e mentiras, o roteiro é coerente ao lidar com todas as consequências envolvendo a paixão, a ganância e a picaretagem dos protagonistas. Tudo isso, diga-se de passagem, numa trama bem conduzida por Russel. Com uma câmera extremamente ativa, que procura sempre as expressões de seus protagonistas, o diretor é cuidadoso ao capturar a essência dos seus personagens. Aquele verdadeiro sentimento escondido atrás do emaranhado de perucas, decotes e laquê.


Apostando na fotografia cheia de vida de Linus Sandgren e na empolgante trilha sonora de Danny Elfman, Trapaça cria uma atmosfera quase caricata, amplificando todo o exotismo do final década de 1970. Ainda que os figurinos e penteados adicionem um charme especial à película, em alguns momentos as roupas extravagantes parecem não representar a verdadeira essência dos personagens. No entanto, como se trata de um filme de picaretas e falsários, essa talvez seja a verdadeira intenção dos realizadores. Independente se proposital ou não, o fato é que essa opção oferece um atrativo a mais para os protagonistas, principalmente para as mulheres, ressaltando o 'sex appeal' das belas Amy Adams e Jennifer Lawrence. Apesar dos excessos, uma solução ousada que inegavelmente contribui para o excepcional trabalho do afiado elenco.


A começar pelo intenso Christian Bale, que mais uma vez passa por uma metamorfose física para viver o vigarista Irving Rosenfeld. Barrigudo e com problemas capilares, Bale cria um personagem crível e completamente perdido. De mãos atadas em meio as atitudes do ganancioso Richie, Bale passa uma desconfortável sensação de angústia em cena, mergulhando - como de costume - de corpo e alma no personagem. O ator é seguido de perto pela dupla Amy Adams e Bradley Cooper, dois astros que devem boa parte do sucesso de suas carreiras a Russel. Indo além do seu bem concebido visual sexy, Adams impressiona ao interpretar uma passional falsária. Sua atuação é tão convincente, que em alguns momentos ficamos sem saber as verdadeiras intenções da personagem. Com uma ótima química com Bale e Cooper, Adams mostra surpreendente versatilidade ao arriscar, inclusive, um sotaque inglês. Já Bradley Cooper fica com o personagem que mais evolui emocionalmente ao longo das duas horas e quinze de projeção. Após um início despretensioso, mais voltado para o humor, Cooper cresce tal qual a ganância do seu Richie. O grande destaque do longa, no entanto, fica pela expressiva Jennifer Lawrence. Surtada como uma dona de casa insatisfeita, Lawrence dá vida a uma personagem de incrível oscilação emocional, indo de grandes rompantes de fúria à cenas de uma tolice impagável. A dança ao som de 'Live and Let Die', por exemplo, já vale o ingresso. Dos quatro indicados ao Oscar, sem dúvidas, ela é a que mais tem chances de levar uma das estatuetas para casa. Além do quarteto, vale destacar ainda os desempenhos de Jeremy Renner, carismático como o político Carmine Politto, do agente covarde interpretado por Louis C.K e da contundente participação Robert De Niro, impecável como um temido mafioso.


Com um trabalho realmente memorável de todo o elenco, Trapaça é a grande constatação do processo de amadurecimento do diretor David O. Russel. Indicado pela segunda vez consecutiva ao Oscar, o realizador revela novamente a sua pericia ao tirar o máximo dos seus comandados. Apostando em um bem concebido tom caricatural, o realizador deixa claro que um poderoso elenco pode transformar uma historia "ok" em algo realmente irresistível. Uma comédia de humor-negro eficaz e extremamente atraente.

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