segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Philomena

Tudo funciona neste que é o mais cativante longa na corrida pelo Oscar de Melhor Filme.

Inspirado em uma incrível história real, Philomena é uma das maiores surpresas entre os indicados ao Oscar 2014. Dirigido pelo experiente Stephen Frears, do elogiado A Rainha, o longa é um daqueles trabalhos de aparência despretensiosa que conquista a atenção do espectador. Impulsionado pelas excelentes atuações de Judi Dench e Steve Coogan, o drama aposta nas soluções simples e na sutileza ao narrar a jornada de uma idosa em busca do seu filho perdido. Acostumado a ter êxito na direção de adaptações literárias, como em Alta Fidelidade e no premiado Ligações Perigosas, Frears tem se notabilizado também por conseguir indicações ao Oscar para suas protagonistas. Ao todo, já incluindo a nomeado de Judi Dench neste ano, sete atrizes conseguiram uma indicação ao prêmio da Academia sob a batuta do realizador britânico. Com destaque para Anjelica Huston, em Os Imorais, Glenn Close, em Ligações perigosas, a própria Judy Dench, por Sra. Henderson Apresenta, e Helen Mirren, vencedora do Oscar por A Rainha. Uma grande prova da perícia do diretor na condução do elenco, o que se torna mais uma vez nítido em Philomena. Como é bom, aliás, ver a carreira de Stephen Frears de volta aos trilhos.

Baseado na obra homônima assinada por Martin Sixsmith, Stephen Frears mostra a sua usual perícia quando o assunto são as adaptações literárias. Conseguindo construir uma narrativa simples, porém intensa, o diretor explora como ninguém a linearidade e o carisma de seus personagens. Adaptado pelo próprio protagonista Steve Coogan, ao lado de Jeff Pope, a trama narra a complicada história de Philomena (Judi Dench), uma senhora com passado trágico que após cinquenta anos decide procurar o paradeiro de seu filho. Na verdade, Philomena engravidou de forma precoce, fato que acabou a afastando de sua família. Entregue a um convento na Irlanda, ela foi obrigada pelas madres a entregar o seu filho para a adoção. De mãos atadas, a jovem mão encontra forças para impedir tal atitude e passa a ter que conviver com a amarga dor da separação. Os anos se passam e, agora idosa, Philomena volta a lembrar do filho no dia em que ele completaria os seus cinquenta anos. Com peso na consciência, ela resolve contar a história para sua filha Jane (Anna Maxwell Martin). Comovida e surpresa com a novidade, Jane parte atrás de uma alternativa para encontrar o paradeiro de seu "irmão". O que ela não esperava, porém, era que um decadente jornalista, Martin Sixsmith (Steve Coogan), avesso as histórias envolvendo questões humanas, fosse a única alternativa para que Philomena pudesse encontrar o paradeiro de seu querido filho. 



Em cima desta carismática trama, o diretor Stephen Frears tem como grande mérito o fato de escapar dos melodramas. Apostando no tradicional humor britânico, explorado com sagacidade pelo ótimo texto, o longa consegue ser sensível sem "apelar" para cenas lacrimosas e grandes oscilações comportamentais. Pelo contrário, já que além de destacar a impecável química entre Dench e Coogan, Frears mostra destreza ao lidar com o contraste envolvendo os dois personagens. Enquanto Philomena segue sendo uma católica devota, mesmo com todas as desventuras envolvendo o seu passado com a Igreja, Sixsmith é um racionalista de carteirinha. Se apoiando nesses contrastes, o longa é inspirado ao explorar os embates ideológicos da dupla, repletos de humor e reflexão. Afinal, apesar de suas convictas e opostas crenças, os dois passam por momentos de turbulência pessoal, buscando juntos um caminho a seguir. O mais legal, porém, é que o longa não tem a pretensão de transformar a busca pelo filho perdido numa jornada de autodescoberta. Isso porque, independente dos novos fatos, os experientes personagens seguem convictos de suas crenças. Sem se prender aos clichês dos debates religiosos, Frears se aprofunda na medida certa nesta questão. Na verdade, o suficiente para abordar esse passado nebuloso envolvendo adoções e a Igreja Católica. Tudo isso, felizmente, sem esquecer o verdadeiro foco da trama: a relação entre Philomena e Sixsmith. E como se não bastasse isso, o experiente diretor inglês mantém um interessante suspense envolvendo a história do pequeno Anthony, apresentando algumas - bem desenvolvidas - viradas na trama. Daquelas que só uma história real poderia nos possibilitar.


O grande destaque do filme, porém, fica pelo o elenco. Na verdade, para ser mais preciso, pelo desempenho da dupla Steve Coogan e Judi Dench. Com uma atuação repleta de energia, apesar da temática não sugerir isso, Dench está radiante em cena. Exalando inocência, seu desempenho vai crescendo ao longo da projeção, recriando uma Philomena gentil e tocante. Por outro lado, de forma surpreendentemente contida, Coogan brilha com um personagem sisudo e pragmático. Com uma figura completamente oposta, o ator convence como um frustrado e sarcástico jornalista. É interessante ver, no entanto, como Coogan traduz o desenvolvimento de seu personagem. Com um início sóbrio e distanciado, aos poucos o jornalista vai deixando o cavalheirismo britânico de lado, criando um grande afeto por Philomena. Exibindo uma grande química em cena, os dois polarizam as atenções do filme e se tornam os principais responsáveis pelo grau de intimidade defendido pela trama. Ainda sobre o elenco, enquanto Sophie Kennedy esbanja intensidade ao interpretar a jovem Philomena, a veterana Barbara Jefford surge completamente seca em cena na pele de uma conservadora madre superior. 


Uma grande surpresa. Essa frase pode resumir bem o que é Philomena, uma tocante história real conduzida de forma sútil pelo experiente Stephen Frears. Um trabalho simples e sincero, de aparência até despretensiosa, que ganhou notoriedade por se colocar na briga pelo Oscar de Melhor Filme entre os gigantescos Gravidade, O Lobo de Wall Street, Trapaça e 12 Anos de Escravidão. O maior prêmio para este drama, no entanto, é conseguir a simples atenção do grande público. Até porque, em meio a esse megalomaníaco mercado cinematográfico, é reconfortante ver realizadores que ainda se preocupam com o simples fator humano por trás de suas histórias.

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