sábado, 22 de fevereiro de 2014

Ela

Spike Jonze cria uma reflexiva abordagem sobre a virtualização dos sentimentos


É inegável que vivemos em uma época de relacionamentos virtuais. O êxito comercial de jogos online e redes sociais como o Facebook, o Twitter e o Whatsapp não só complementam os relacionamentos interpessoais, mas também já substituem a presença física, encurtando distâncias, aproximando os opostos e criando novas realidades. Muitas relações amorosas, de amizade e até mesmo de trabalho acabaram sendo possíveis, ou talvez viáveis, a partir destes adventos tecnológicos oriundos da era da internet. Em meio a este cenário extremamente atual, o criativo diretor Spike Jonze nos apresenta Ela, um poético e perspicaz romance entre o homem e um sistema operacional. Explorando toda a presença de Joaquin Phoenix, que sem problemas leva o filme "nas costas", e a incrível participação "ausente" da musa Scarlett Johansson, o longa cativa ao propor uma sincera e sensível abordagem sobre a virtualização dos nossos sentimentos.


Apostando no romantismo e na poesia por trás da atitude dos protagonistas, o roteiro assinado pelo próprio Spike Jonze é certeiro ao levar esta história de amor virtual para um futuro bem próximo. Sem especificar datas e questões cronológicas, toda a estética futurista concebida pelo diretor é peculiar e extremamente original. Esqueça carros voadores, robôs empregados ou policiais ciborgues. O futuro na visão de Jonze mistura um pouco da atmosfera 'hi-tech' de Tóquio, destacando arranha-céus iluminados e condomínios que mais parecem quartos de hotel, com cores e figurinos retirados da década de 1970. Opção visual que, diga-se de passagem, só amplia originalidade acerca deste romance.  Ela narra a história de Theodore Twombly (Joaquin Phoenix), um escritor que trabalha em uma empresa de terceirização de cartas pessoais. Passando por um momento conturbado em sua vida, Theo ainda padece emocionalmente após o fim do seu casamento com Catherine (Rooney Mara), o grande amor de sua vida. Acreditando que ela teria motivado a separação, Theo tenta reencontrar a felicidade através de encontros casuais e de sua amizade com Amy (Amy Adams). Frustrado com a sua vida pessoal e buscando viver novas experiências, Theo resolve dar uma chance para um novo sistema operacional. A partir da inteligência artificial do aplicativo, o escritor cria Samantha (Scarlett Johansson), uma espécie de secretaria eletrônica com pensamentos e raciocínio próprios. Demonstrando grande carência, Theo logo apaixona pela voz deste programa e passa a conviver com as consequências deste inusitado romance. 


Em cima desta excelente premissa, Spike Jonze destaca com sensibilidade os motivos que levaram Theo a experimentar esta nova possibilidade de relacionamento virtual. Até porque, diferente da grande maioria que o cerca, Theo é um daqueles que evitam se entregar ao mundo virtual. Ele trabalha escrevendo cartas afetivas em nome de outras pessoas, alimenta vontades simples, como ir a praia ou beber suco de frutas, e não deixa de lado a amizade com sua vizinha Amy. Enfatizando as dificuldades nos relacionamentos pessoais e a solidão do protagonista, o roteiro é habilidoso ao mostrar quão difícil é manter vínculos amorosos na atualidade. E, até por isso, o quão aparentemente perfeito poderia ser um relacionamento com uma inteligência artificial, aberta a novas experiências e aprendizados. Não demora muito, porém, para que esta aparente segurança caia por terra. Movidos pela paixão, enquanto Theo passa a se entregar de "corpo e alma" a vida virtual, Samantha decide buscar incessantemente a materialização humana. É nesse ponto de interseção, onde homem e máquina parecem seguir caminhos opostos, que Theodoro passa a enfrentar os velhos fantasmas de seu fracassado casamento. Afinal, não seria ele a parte problemática do relacionamento com Catherine? A partir deste dilema, Jonze levanta interessantes temas dentro de um relacionamento, como a estagnação, os ciumes e o amadurecimento, tudo isso sob o ponto de vista desta inusitada relação. A cena em que Samantha resolve se materializar num corpo de uma completa estranha é genial, e inicia muito bem esse período de conflitos entre os dois. 


Contando com grande atuação de Joaquin Phoenix, que impressiona por sua oscilação de sentimentos, indo da melancolia ao êxtase com extrema perícia, Jonze mostra destreza na condução do relacionamento entre homem e voz, conseguindo encontrar um verdadeiro vínculo emocional entre os dois. Méritos que precisam ser divididos com o excelente desempenho da bela Scarlett Johansson. Mesmo sem aparecer em cena, a atriz constrói uma personagem intensa e naturalmente complexa, demonstrando uma ótima química com Phoenix. Mesmo com estas duas grandes atuações, nem tudo são flores em Ela. Ainda que Jonze revele perícia ao discutir sentimentos em tom de poesia, o ritmo do longa deixa um pouco a desejar.  Como se não bastassem as excessivas duas horas e dez de projeção, algumas das subtramas nitidamente poderiam ser melhor desenvolvidas. A relação de Theo com sua amiga Amy, por exemplo, merecia mais espaço, principalmente se levarmos em consideração o ótimo desempenho de Amy Adams. Por mais que a personagem tenha fundamental participação no excelente clímax, fica nítido que ela poderia ter uma presença mais constante dentro da trama. Outro que também merecia mais tempo de tela é o divertido Paul, colega de trabalho de Theo, conduzido com competência por Chris Pratt. Pequenos erros que, felizmente, são escondidos pela reflexividade da trama e pela genuína estética cult da película. Com direito a tocante trilha sonora assinada pela banda Arcade Fire, que inclui a versão cantora de Scarlett Johansson, e a luminosa fotografia, estilosamente concebida pelo sueco Hoyte Van Hoytema (O Espião que Sabia Demais).


Sem se preocupar com explicações baratas e tecnicismos desnecessários, Ela é uma bela e tocante fábula sobre os relacionamentos atuais. Abordando de forma inusitada a relação entre homem e sistema operacional, Jonze é perspicaz ao discutir a forma como estamos lidando com as nossas emoções. Se apoiando no grande desempenho de Joaquin Phoenix, o romance utiliza este estudo sobre a virtualização dos sentimentos para destacar a necessidade humana de se buscar o afeto através dos relacionamentos. Por mais complexos e dolorosos que eles possam ser. Um trabalho esteticamente bonito, poético, original, mas lento em alguns momentos. Tal qual aqueles downloads que cismam em não terminar.

2 comentários:

Reinaldo Glioche disse...

Eu gostei muito do filme e de sua crítica também. Acho que Jonze quis mais discutir nossa necessidade de conexão do que os efeitos da virtualização de nossas relações sociais e afetivas. Prova disso são justamente as participações de Olivia Wilde e Amy Adams. É curioso que Amy faça amizade com o Sistema operacional deixado para trás por seu marido logo quando ela tb é abandonada. São subtextos que enriquecem muito o segundo melhor filme entre os indicados ao Oscar. O primeiro, na minha avaliação, é "O lobo de Wall Street".
abs

PS: Cinemaniac cada vez melhor!

thicarvalho disse...

É uma interpretação interessante também Reinaldo. Na verdade, durante boa parte do filme eu estava seguindo essa sua linha. Mas o grande climax, mudou essa minha interpretação. Independente disso é um bom filme. Obrigado pela visita e pelos elogios. Grande Abs.

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