quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Clube de Compras Dallas

Marcantes atuações dão o tom a essa tocante jornada pela vida

Trazendo no elenco dois dos virtuais vencedores do Oscar 2014, Clube de Compras Dallas é maior que os impactantes desempenhos dos protagonistas Matthew McConaughey e Jared Leto. É verdade que toda a entrega emocional e física dos dois atores, que tiveram de perder mais de 20 kg para estrelarem o longa, eleva o patamar deste trabalho. O intenso drama dirigido pelo canadense Jean-Marc Vallée (CRAZY), no entanto, não se resume ao grande esforço do seu time de atores. Fugindo de todos os clichês que geralmente cercam os filmes sobre a AIDS, incluindo ai o usual clima lacrimoso, a trama aposta em personagens humanos, cheios de camadas, que vão se descobrindo através desta jornada pela vida. Ao narrar o "boom" do vírus HIV nos EUA, a partir de 1986, esta tocante história real não se prende somente as dificuldades envolvendo o tratamento. Indo a fundo nesta questão, o longa destaca alguns dos "verdadeiros" problemas dos pacientes soropositivos, que, como se não bastasse a agressiva doença, precisavam encarar ainda o preconceito, a ação das grandes empresas do ramo medicinal e o descaso dos governantes.



E pra destacar o absurdo cenário envolvendo os pacientes com AIDS, o roteiro assinado pela dupla Craig Borten e Melissa Wallack é certeiro ao discutir o processo de desenvolvimento da droga AZT, o primeiro remédio aprovado nos EUA para combater esta doença. Jogando uma reveladora luz sobre os bastidores dos testes envolvendo essas drogas e a ação agressiva das grandes indústrias farmacêuticas, a grande sacada de Clube de Compras Dallas fica pela forma como este processo é apresentado sob o real ponto de vista de Ron Woodroof (Matthew McConaughey). Um machista e homofóbico texano, de vida promíscua, que levava o seu tempo livre entre mulheres e os rodeios. Tudo muda, no entanto, quando Ron sofre um desmaio e é levado a um hospital. Através dos especialistas Dr. Sevard (Denis O'Hare) e da Dra. Eve Saks (Jennifer Garner), ele recebe a notícia que está com Aids e que teria somente mais trinta dias de vida. Revoltado com o diagnóstico e com as insinuações sobre a sua vida sexual, Ron se recusa a aceitar esta realidade. Sofrendo com o preconceito dos amigos e com a impossibilidade de receber o experimental tratamento a base do AZT, o texano também se recusava a morrer. Após uma frustrada tentativa com a droga, Ron parte atrás de novas possibilidades para salvar a sua vida. É ai que se inicia a jornada de descobertas de Ron, que, contando com a improvável ajuda do travesti Rayon (Jared Leto), acaba buscando a sobrevivência através das pessoas que tanto odiava. Ron então cria o Clube de Compras Dallas, um "empreendimento" que permitia aos soropositivos terem acessos a novas alternativas de tratamento, bem mais acessíveis do que o AZT.


Não tenho dúvidas em dizer que Ron (McConaughey) e Rayon (Leto) formam a mais improvável parceria das últimas décadas no cinema. Enquanto o primeiro não tolerava o modo de vida homossexual, e se glorificava da fama de garanhão, o segundo era um afetado transgênero, que não escondia o seu lado feminino. Vale destacar aqui, porém, que apenas Ron Woodroof realmente existiu e que o carismático Rayon é um personagem completamente ficcional. Explorando as brilhantes atuações de Matthew McConaughey e Jared Leto, que, física e emocionalmente dedicados ao longa, só adicionam mais densidade a trama, o canadense Jean-Marc Vallée constrói um relacionamento original e tocante. Sem se prender aos melodramas, o roteiro esbanja humanidade ao desenvolver a relação dos dois, abraçando todos os erros e acertos desses personagens. Na verdade, a forma como o roteiro apresenta o processo de amadurecimento de Ron é impressionante, destacando as nuances deste homem que optou por não desistir. A forma como ele vai tolerando o homossexualismo, por exemplo, é totalmente condizente com a sua personalidade, indo gradativamente da ignorância à afetuosidade. Sem se preocupar em criar um ícone ou um símbolo de resistência, a trama busca enfatizar o lado humano de Ron, nem que para isso precise mostrar todos os defeitos deste homem. E ainda que seja "chover no molhado", o que McConaughey faz para dar vida a este intenso personagem é assustador. Toda a magreza e aparência doente do ator são até menos impressionantes que o aspecto visceral de sua interpretação. Por mais difícil que pudesse parecer, ele demonstra intensidade ao construir não só um machista homofóbico, mas também um doente que sai em defesa dos infectados pelo HIV. A cena em que ele praticamente urra enquanto chora é de um impacto ímpar. Um 2013 impecável do ator, que teve também grandes atuações em O Lobo de Wall Street e no ótimo Amor Bandido. 


Melhor ainda, aliás, é o desempenho de Jared Leto. Apesar de ter um tempo menor em cena, o versátil ator tem um daqueles desempenhos únicos na carreira de um artista. Com uma intensa entrega física, tão assustadora quanto a de McConaughey, Leto é puro carisma em cena. Para contrastar com a aparência dura de Ron, o ator cria um Rayon dócil e gentil. Tudo isso sem perder a força por trás do seu personagem, que, além de lutar contra a AIDS, já vinha duelando contra o preconceito em função da sua opção sexual. Uma atuação digna do Oscar que ele vai receber. Não tenho dúvidas disso. Vale destacar, porém, que Clube de Compras Dallas não se resume ao ótimo desempenho da dupla de protagonistas. Apesar da narrativa simples, a trama abre espaços para discussões mais profundas e interessantes subtramas, apostando em poderosos diálogos e no humor pontual. Ao discutir o monopólio criado pelas grandes empresas medicinais e a forma descartável com a qual os soropositivos eram tratados, o roteiro adiciona outros bem construídos personagens, entre eles a Dr Eve Saks, num eficiente desempenho de Jennifer Garner, e o agente Richard Barkley (Michael O'Neill). Além disso, o processo de procura de novas alternativas medicinais e as atitudes de Ron diante das negativas dos órgãos de saúde norte-americanos são extremamente interessantes, se mostrando ainda hoje contextualizadas. Infelizmente, porém, algumas destas subtramas não ganham um bom arremate, sendo resolvidas de forma acelerada e pouco inspirada. Por falar em falhas, a trilha sonora inexpressiva e a fotografia apática também não condizem com a qualidade do material apresentado. 


Apostando em personagens que não se abateram em função da então misteriosa doença, cercada de preconceitos e diagnósticos completamente incertos, Clube de Compras Dalas é um relato emocional e sensível sobre o "boom" da AIDS nos EUA. Com impecáveis desempenhos de Leto e McConaughey, o drama acerta ao destacar como a vida pode dar voltas. Ao ressaltar o lado humano por trás de Ron Woodroof, o longa mostra a verdadeira essência deste texano, sem a pretensão de criar um herói. Um homem que, ao tentar driblar a morte, encontrou não só uma forma para ganhar dinheiro, mas também um motivo pelo qual lutar. Uma tocante jornada de autodescoberta, marcada por grandes atuações, uma narrativa simples e uma trama - ainda hoje - extremamente necessária.


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